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Na passada sexta-feira os deputados da nossa Assembleia mostraram, mais uma vez, que um país nunca avançará enquanto a política prevalecer sobre a humanidade. Depois de um importante passo rumo não só à igualdade entre cidadãos, mas sobretudo à defesa das crianças que crescem sem pais, deram trezentos passos atrás, propondo um referendo acerca de uma lei que já tinha sido aprovada, a lei da co-adopção.
Sei que somos um país tipicamente conservador. Por muito que as leis mudem, a família tradicional para a maioria das pessoas, embora cada vez mais rara, continua a ser um pai e uma mãe, de preferência casados e, melhor ainda, casados pela Igreja. Também sei que, para muitos, a homossexualidade é uma moda, uma mania, uma doença, tudo menos aquilo que é: uma orientação sexual tão válida como a heterossexualidade. E ainda sei que somos um país de carneiros, de pessoas que acreditam em tudo o que vêm na televisão, sem reflectir, sem investigar por conta própria, e depois proferem afirmações boçais do tipo "as crianças ficam traumatizadas por terem dois pais ou duas mães". (Para essas, fica este vídeo)
Ainda assim, considero a lei da co-adopção curta. Curta mas um primeiro passo rumo à defesa dos interesses de milhares de crianças. Permite que o companheiro de alguém que um dia teve uma relação heterossexual da qual nasceu uma criança, pudesse co-adoptar essa mesma criança. No fundo, formalizar perante a lei uma relação existente. Para uns por princípio, para outros por necessidade, como no caso de o progenitor morrer e a criança, que sempre viveu com aquele casal, ser retirada à outra pessoa que a criou por não ter laços de sangue. Não é o mesmo que autorizar a adopção plena, isso sim um feito grandioso, mas já é alguma coisa.
Num país onde há 8142 crianças a viver em instituições, sem saberem o que é ser amadas por alguém, sem saberem o que é um colo, um adulto que lhes dê toda atenção, fico chocada que se proponha gastar dinheiro a referendar uma coisa que deveria ser indiscutível: todas as crianças têm o direito a crescer numa família. São 8142 crianças, 95% do total de crianças separadas dos seus pais biológicos, que crescem no limbo de instituições, sem serem adoptadas e, no caso em que a adopção não se justifica porque há esperança de se poderem um dia reunir à família biológica, sem sequer serem colocadas em famílias de acolhimento.
Mas os nossos políticos não querem saber das crianças, nem destas famílias. Não querem saber da sua necessidade de atenção individualizada, dos laços afectivos que as prendem a determinadas pessoas, mesmo que não sejam de sangue. Será melhor uma criança crescer desamparada numa instituição do que com amor, só porque esse amor vem de alguém cujas preferências sexuais não são a norma? (E o que é a norma?) Crianças que, aos dezoito anos são deixadas a si próprias, porque já não podem estar nessas mesmas instituições, tornando-se muitas vezes adultos com vidas precárias. Ou acham que de uma instituição vão para a Universidade? E a que propósito se referenda este tipo de questões, quando há tantas outras muito mais relevantes para o país, que deviam ser discutidas?
Não acredito que o referendo vá para a frente. Penso que foi um episódio estúpido que só serviu para desacreditar ainda mais a classe política e lançar o pânico entre todas as famílias afectadas directamente por esta lei. No entanto, e no ano em que se celebram os 25 anos da Convenção sobre os Direitos da Criança, que não é apenas uma declaração de princípios, mas sim um documento com vínculo jurídico, espero que tenha servido para que todos se (re)lembrem de que as crianças precisam de estabilidade e amor. Venham de onde vierem.
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Não era desta forma que queria começar o ano do blog. Tinha imaginado um post cheio de algodão doce e palavras divertidas. Mas a vida é assim mesmo: termina quando menos esperamos, mesmo para aqueles que tomamos por imortais.
Só que no caso de Eusébio, a notícia é mais difícil de interiorizar, uma vez que, ainda em vida, ele já era imortal. É como alguém dizer que Deus deixou de existir. Como assim? É impossível. Os deuses não morrem, que disparate! E por isso não consigo verter qualquer lágrima. Por isso e porque o seu nome apenas me desperta sorrisos. Pelas imagens de glória que me vêm à memória e pela lembrança do seu rosto, sempre sorridente, dentro e fora do campo.
Não sou da geração que teve o privilégio de vê-lo jogar, num tempo em que o futebol era apenas futebol, mas sou da geração que já nasceu com o seu nome tatuado na alma. Eusébio é Portugal, o rei plebeu da dinastia dos heróis. E como qualquer outro rei, não há como contornar a sua existência, passem os séculos que passarem.
Não sou da geração que teve o privilégio de se encantar com o seu jogo a cada domingo, mas ainda o vi jogar durante 37 minutos e fazer um golo, num jogo em sua homenagem a 1 de Dezembro de 1992. Foi a comemoração do seu 50º aniversário e a condecoração com a medalha de bronze da Ordem do Infante D. Henrique pelo Presidente da República. Foi, aliás, a primeira vez que entrei no Estádio da Luz, pela mão do meu avô, e o dia em que fiquei irremediavelmente apaixonada pelo Benfica.
Não sou dos que tiveram o privilégio de privar com Eusébio, de ouvir as suas histórias e tirar fotografias a seu lado, mas consegui dizer-lhe o que sentia na única vez em que estive ao seu lado. Eu, que não sou nada destas coisas e acho sempre que as figuras públicas, quando estão nos seus momentos privados, não querem ser incomodadas.
Foi numa noite de Verão há dois ou três anos num restaurante em Sesimbra. Eu estava à espera de mesa junto à vitrina do peixe fresco e Eusébio veio escolher o seu jantar. Já o tinha visto sentado no fundo da esplanada, discreto como sempre foi, e dito a mim própria que gostava de ser mais extrovertida e ter coragem para ir cumprimentá-lo. O destino quis que Eusébio se levantasse e viesse até mim, como que me oferecendo a derradeira oportunidade de cumprir o meu desejo. Os meus joelhos começaram a tremer, a minha garganta secou e trezentas mil borboletas esvoaçaram na barriga. Enquanto Eusébio falava com o empregado, eu pedia ao meu cérebro para dominar o sistema nervoso e deixar-me falar. E assim foi. Antes que o Pantera Negra se voltasse a sentar, toquei-lhe no ombro e disse algo do género: «Senhor Eusébio, desculpe incomodá-lo, mas só queria dar-lhe um beijinho e agradecer-lhe por tudo o que fez pelo nosso Benfica e por Portugal. É um orgulho cumprimentá-lo». O Rei sorriu, agradeceu humildemente e voltou para a sua mesa, para a sua existência divina. Eu fiquei sem conseguir falar por mais dez minutos e só voltei à minha cor normal ao fim de vinte, o que é perfeitamente aceitável para quem acaba de falar com uma lenda.
Hoje, ao ver as imagens da sua despedida, orgulho-me de ter conseguido dirigir-lhe tais palavras, ainda que não tenham sido as mais inspiradas. Porque é muito mais importante homenagear as pessoas em vida do que escrever coisas bonitas depois da sua morte. E até nisso Eusébio foi especial. Recebeu homenagens e estátuas e medalhas enquanto as pode apreciar. Soube que era querido, não só pela família e amigos, não só pelos benfiquistas, não só pelos portugueses, mas por várias gerações de pessoas de todo o mundo. Agora, de regresso ao Olimpo onde pertence, de certeza que vai a sorrir, com o coração cheio de boas memórias.
Boa viagem.
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Português que se preze, deixa sempre os presentes para a última da hora. E depois entra em stress, no dia 23, ou mesmo no dia 24 de manhã, quando a família já está a telefonar a perguntar a que horas chega, que não se esqueça das couves, ou das rabanadas, ou das cadeiras dobráveis, que este ano o Chico traz a namorada.
Pois desta vez não há desculpa. Têm aqui uma excelente lista com sugestões para todas as idades e todas as bolsas. E, ainda por cima, uma lista de produtos exclusivamente portugueses, que é para nos ajudarmos uns aos outros a sair desta interminável crise. A maioria deles são de pequenos negócios online, pelo que só têm mesmo de encomendar e ficar sentadinhos no sofá à espera do correio. Melhor que isto, só mesmo directamente com o Pai Natal, que eu sou apenas uma ajudante.- Uma clutch Baguera a partir de €110
- Uma peça de bijutaria da Décolleté a partir de €20
- Uma fotografia Legolive - €50
- Um tonki da street artist Vanessa Teodoro - €17
- Um bordado da Hardcore Fofo (esta tem bolinha!!! não ofereçam às avós!) - a partir de €10
- Um boneco Carapau de Corrida a partir de €15
- Conservas (diz que está na moda!) à venda na típica Conserveira de Lisboa, mas também em muitos supermercados e lojas gourmet por esse país fora. A partir de €2
- Objectos do antigamente à venda n'A Vida Portuguesa - a partir de €1
(para uma experiência ainda mais kitsch, visitem a loja de artesanato na minha avó, na Rua Miguel Bombarda nº94 Barreiro, onde encontram artesanato típico, galos de Barcelos, loiça das Caldas - bonecos também - canecas do Benfica, facas, utensílios de cozinha e tudo embrulhado no papel mais berrante com fitas e laços cada um de sua nação, tudo colocado em sacos de plástico sem qualquer tipo de branding, como antigamente!)- Discos e livros portugueses! Há tantas opções e tão boas (e não, não vou voltar a falar dos meus fantásticos livros!)... Vou apenas deixar um exemplo de um artista de quem gosto e que, tal como eu, anda a fazer tudo sozinho :)
E e isto. Espero que tenham um Natal muito feliz e bem português. -
Descobri recentemente um projecto nacional realmente inspirador. Chama-se Maria Riding Company, nasceu oficialmente em 2012, e não é mais do que o restauro de motas clássicas. Mentira. É muito mais do que um restauro: é a transformação de uma mota clássica em algo totalmente novo, com um espírito vintage mas muito original. Por outras palavras, uma peça de arte.
E como viajar também se faz fora da estrada, a Maria Riding Company criou aquelas que, para mim, são as pranchas mais bonitas do mundo. Aliás, são tão bonitas que estou mesmo a pensar abandonar o bodyboard só para poder ter uma.
Depois ainda há os acessórios, as mochilas, as t-shirts, tudo com um look simplesmente fabuloso. Olhar para aquelas peças faz-nos pensar numa roadtrip de verão, pela costa leste dos Estados Unidos. Ou melhor ainda, pela nossa Costa Alentejana.
Vale a pena espreitar o site, igualmente cuidado e aspiracional, e ficar a sonhar com a tal roadtrip, enquanto interiorizamos o espírito da marca:
Extraordinary Rides for Unconventional People.
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Há umas semanas, a propósito das infames declarações do presidente da FIFA, escrevi uma carta ao Cristiano Ronaldo. Agora, que estamos a 90 minutos de garantir o apuramento para o Mundial, volto a publicá-la. Porque seria uma enorme injustiça, depois do que tem lutado e dado à Selecção e ao nosso país, este homem não jogar no Brasil. Força Ronaldo e força Portugal.
Querido Ronaldo,
(Desculpa a familiaridade no tratamento, mas gosto tanto de ti que não consigo dirigir-me à tua pessoa com um mero caro, muito menos um excelentíssimo, embora me mereças o maior respeito e consideração.)
Como qualquer figura pública sabes bem que a fama traz amores e ódios. A fama, a riqueza, o sucesso e o talento. E quando alguém tem estas quatro coisas juntas, como é o teu caso, é difícil não ser alvo constante desses ódios e invejas. Só que, no teu caso, acredito que por cada ódio, venha ele das mais altas instâncias do futebol ou do mais baixo café de rua, há o dobro em amor. Sim, sei que, como eu, há milhões de pessoas que te adoram, que te admiram e que sabem que és um homem e um atleta fora de série. E sei que, felizmente, sabes disso.
Para mim é um orgulho ver-te jogar, seja com que camisola for (com muita pena que não seja a do Benfica, mas enfim...). É um orgulho não só por seres português, mas sobretudo pelo difícil caminho que trilhaste até atingires os teus objectivos. Os odiosos e os invejosos gostam de falar do teu corte de cabelo, dos teus carros, das tuas namoradas, mas não falam dos anos que passaste longe da tua família, sozinho, nem dos dias em que ficaste a treinar depois dos outros se irem embora para te superares e tornares no atleta magnífico que és. Gostam de falar das tuas férias e das festas onde vais, mas não falam dos hospitais que visitas, dos miúdos que acarinhas e dos autógrafos que dás, mesmo quando a agenda é apertada e estás desejoso de ir para casa ter com o teu filho. Gostam de falar da roupa das tuas irmãs ou do novo corte de cabelo da tua mãe, mas não falam do amor e da segurança que elas te dão e que foi, decerto, fundamental para que nunca tenhas desistido dos teus sonhos e nunca te tenhas perdido como tantos outros atletas que ficam cegos pela fama e pelo dinheiro.
E por falar em dinheiro, é teu de direito, conquistado literalmente com o teu suor, com o teu talento sobrenatural e ainda bem que podes proporcionar uma vida fantástica a todos de quem gostas. Ao contrário de tantos outros atletas, o dinheiro não te corrompeu, não te tirou a alegria de jogar à bola nem a constante batalha que travas contigo próprio para seres cada vez melhor. Uma batalha que tenho tido o privilégio de assistir ao longo dos últimos dez anos.
Não sou do tempo do Pelé nem vi o "meu" Eusébio jogar. Era uma menina que brincava com as Barbies quando o Maradona e outros grandes talentos dos anos 80 davam cartas. Só comecei a ligar ao futebol quando vi uma reportagem sobre o Van Basten no início dos anos 90 e só fiquei verdadeiramente apaixonada quando fui ao Estádio da Luz pela primeira vez. Vi todos os grandes jogadores portugueses (e estrangeiros!) jogarem inúmeras vezes, ao vivo e a cores, desde então. Do meu maestro Rui Costa, ao aclamado Figo, entre tantos outros. Mas nunca vi nenhum jogador que se compare a ti. Tu tens aquela coisa que só os grandes têm. Aquela coisa que nos cola ao relvado, que nos faz gritar e nos enche o coração. Aquela coisa que te vai tornar lendário e imortal.
Para mim, digam o que disserem, és o melhor do mundo. O melhor de sempre! Ah, e se vestisses a camisola do Benfica...
Beijinhos,
Filipa
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E por falar em mulheres portuguesas que levam o nome de Portugal pelo mundo, há uma que tem sido exímia a fazê-lo. Trata-se da artista Joana Vasconcelos. Desta vez foi uma das 15 mulheres convidadas para criar uma peça para a exposição que celebra o perfume Miss Dior.
Cada artista tinha de criar uma peça tendo por base o frasco deste perfume, peças essas que estão em exposição desde ontem no Grand Palais em Paris. O resultado está nas imagens abaixo e para mim, como fã quer da Joana, quer da Dior, não podia ser mais fascinante. Parabéns Joana.
Esboço do famoso frasco Miss Dior
As 15 artistas convidadas
Frascos e leds
Pormenor da peça
A artista e os técnicos
A estrutura
O resultado final
Miss Dior Exhibition
13 a 25 de Novembro 2013
Grand Palais - Paris
Entrada grátis (para quem tiver a sorte de passar pela capital francesa)
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Há dias fui passear ao Jardim do Ultramar, ou como é mais conhecido, o Jardim Botânico Tropical. Tinha lá estado quando estava grávida, por altura de uma feira ecológica e alternativa, e gostei tanto do espaço que quis voltar.
Fiquei um pouco surpreendida por cobrarem dois euros à entrada, mas pronto, há que regar as plantas e tratar da estufa, que o dinheiro dos contribuintes não dá para tudo, nem sequer para colocar placas com os nomes das espécies, ou recuperar a estufa arte-deco cuja fachada está a ficar devoluta. Mas a grande surpresa foi a resposta da funcionária da bilheteira quando lhe pedi uma factura.
- Factura não temos...
- Não têm? Então e agora?
- Agora, a única maneira é a senhora enviar os bilhetes para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, solicitando a factura dos mesmos.
- E sou eu que pago o envelope e o selo?
- Sim.
- Ah...
Viva o Estado Português, sempre a dar o exemplo.
http://www2.iict.pt/jbt -
O meu país é cheio de sol e de mar e de paisagens bonitas. É cheio de poetas e atletas e artistas de renome. É cheio de história e de feitos e de tesouros em cada recanto. Mas também é cheio de pessoas. E a maioria das pessoas é desinteressada e muitas vezes iletrada também.Só num país de pessoas desinteressadas é que se chega ao que se chegou. Pessoas que não votam, que não se queixam, que não se impõem, que deixam andar, que fecham os olhos, que acham tudo normal. Ou que se queixam apenas quando as ervas daninhas chegam ao seu quintal, assobiando entretanto para o ar, esquecendo-se que na verdade é mesmo a união que faz a força e que se tivessem ajudado o vizinho a combater as ervas daninhas quando elas o atingiram, talvez estas não se tivessem propagado pelo bairro inteiro.Só num país de pessoas iletradas é que se engolem todas as informações e desinformações que aparecem na comunicação social sem questionar. Sem sentido crítico. E se elegem corruptos atrás de corruptos, incompetentes atrás de incompetentes, divididos em dois partidos (ou quatro tanto faz, porque quando chegam a qualquer cargo de poder são todos iguais e as mesmas pessoas que criticavam os lobbies, os empregos para os amigos, a incoerência, passam a fazer exactamente a mesma coisa).Só num país de pessoas assim se deita por terra o futuro de pelo menos duas gerações. Por ganância, incompetência e amor ao poder de uns e por desinteresse, passividade e alheamento dos outros.No dia em que se celebra a felicidade não posso, por isso, estar feliz com o meu país. Um país onde há outra vez crianças a ir para a escola de estômago vazio e velhos sem dinheiro para os medicamentos. Onde há reformados a sustentar os filhos e os netos com as suas cada vez mais magras reformas e pessoas a desligar os aquecedores não por opção ecológica, que tanto me alegraria, mas por necessidade . Um país onde, em vez de se sair, se regressa a casa dos pais e onde os grandes empresários acham que um ordenado mínimo de 400 euros ainda é demasiado alto para se ser competitivo.Não posso estar feliz quando nos últimos meses amigos atrás de amigos partiram para outros destinos e continentes, não pela aventura mas por não terem outra opção. Ou quando faço contas aos meus rendimentos depois de mais uma leva de cortes e constato que, se não fossem os meus pais e sogros, não podia ter mais filhos. Ou quando vejo o negócio onde a minha família trabalhou durante mais de cinquenta anos aumentar a estatísticas das insolvências e engrossar as fileiras do desemprego.Sempre tive um espírito revolucionário, embora seja totalmente apartidária. Sou mais pelas causas do que pelas hierarquias. Sempre ergui a voz contra as injustiças e sempre questionei as ordens quando as achava injustas, não para ser do contra, mas para tentar compreender o seu porquê. (Talvez por isso, ao fim de dez anos de carreira, continue com quase tanto como quando comecei, o que também diz muito sobre a mentalidade das chefias deste país.) Quando vejo as notícias ou ouço as histórias da minha gente apetece-me ir para a rua gritar. Chega mesmo a apetecer-me incitar à violência, percebendo que muitos movimentos terroristas surgem exactamente do desespero de gritar e gritar e ninguém nos ouvir. Mas claro que isso é apenas um devaneio e nunca uma ideia de solução. Até porque este meu país (e a Europa em geral!) precisa mais do que revolucionários. Precisa de um rumo. E esse não o consigo vislumbrar.©VHILS
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Porque cada vez me inquieta mais a situação política do meu país (bem mais do que o desastre económico), deixo aqui um texto que espelha a minha revolta. São palavras de António Lobo Antunes, porque jamais o conseguiria dizer melhor:
Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida.
Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento. Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos. Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos.
Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade. O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade as vezes é hereditário, dúzias deles.
Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão. O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal. Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito. Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver:
- Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro
- Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima
- Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo
que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade.
As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas,
ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente. Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos.
Vale e Azevedo para os Jerónimos, já!
Loureiro para o Panteão já!
Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já!
Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha.
Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram. Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito. Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis. Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair. Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano. Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos. Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar. Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso.
Agradeçam este solzinho.
Agradeçam a Linha Branca.
Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar.
Abaixo o Bem-Estar.
Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval. Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros. Proíbam-se os lamentos injustos. Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa. Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto. Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar?
O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos uns aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.
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Escrevi "Os 30" durante o final de 2009 e o início de 2010. Os tempos estavam difíceis, a crise era global, mas como também já andávamos em crise desde 2001, a malta ia andando (expressão típica portuguesa que tão bem exprime o nosso temperamento) sem se queixar mais do que o costume.O livro (para quem, escandalosamente ainda não leu!) conta a história de um grupo de amigos dos tempos de faculdade, que se reúnem num jantar depois de muito tempo afastados. É contada por três personagens, com três visões e experiências diferentes da vida, uma das quais até se pode dar ao luxo de viver às custas do marido.Ora serve esta crónica simplesmente para dizer que se fosse hoje, o livro se calhar não existia, visto que os amigos continuariam afastados e dificilmente se iriam reunir nos próximos anos ou mesmo décadas. Um estaria emigrado na Noruega, outro no Canadá, outro no Brasil, outro em Angola, outro em Singapura, e outro no interior do país a viver com os pais, depois de ter entregado a casa ao banco. Iam-se mantendo em contacto via Facebook e com uma ou outra ligação via Skype e iam adiando as promessas de uma visita ("vem que só tens de pagar a viagem e podes ficar cá em casa) porque os vinte dias de férias por ano não dão para tudo e é sempre preciso guardar uns quantos para ir a Portugal comer uns caracóis em Agosto.Ai Portugal, Portugal, ou nas palavras de Pessoa:"Senhor, a noite veio e a alma é vil.Tanta foi a tormenta e a vontade!Restam-nos hoje, no silencio hostil,O mar universal e a saudade."
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Amanhã é a última vez que poderemos gozar o feriado de Nª.Srª. da Assunção. Segundo os peritos, os senhores que tudo sabem e que trouxeram, ao longo de 20 anos, o nosso país ao estado em que está, a redução do número de feriados serve para aumentar a produtividade.
Pode ter o seu quê de verdade, num país em que toda a gente faz pontes ou junta dois dias de férias ao feriado para ficar com quase uma semana inteira de descanso. Mas o 15 de Agosto? Que diferença é que vai fazer quando 90% da população está de férias de qualquer maneira. Ou será que ninguém reparou que o país pára nas primeiras semanas de Agosto? Restaurantes, mercearias, escolas, creches, até há empesas do sector privado que incentivam os trabalhadores a tirar férias neste mês, porque pouco há para fazer.
Isto é o que se chama uma medida para inglês (ou neste caso, alemão) ver. Seriam mais honesto se acabassem com o 25 de Abril, cujos princípios e valores estão a ser cada vez mais ignorados.
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