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  • Numa das crónicas anteriores, terminei o texto a dizer que uma mãe cansada prefere sempre dormir a uma noite de sexo escaldante. Isto não só provocou um frenesim de mensagens a questionar a qualidade da vida sexual de todos os casais que têm filhos, como ainda pôs em questão a minha própria vida conjugal.

    Calma. Não entrem já em pânico, por favor, e não me liguem a perguntar se precisamos de terapia conjugal. Não é verdade que as mulheres percam o desejo sexual depois de serem mães, nem é verdade que se sintam menos sexy e atractivas. Passando aqueles primeiros meses pós-parto, em que o desequilíbrio hormonal se alia à flacidez pélvica e aos quilos extra que nunca mais se vão embora, o desejo regressa com tanta ou mais força do que antes. Só que, com filhos, surge a questão da disponibilidade.

    No fundo, é como ter uma tia a dormir lá em casa ou passar um fim-de-semana com amigos com quem ainda não temos total à vontade. Ninguém se vai pôr a andar nu pela casa e a fazer o amor onde quer que lhe apeteça, pois não? Então, com filhos é a mesma coisa, mas para sempre! Quer o casal seja mais virado para sexo matinal, quer seja mais virado para sexo nocturno, há sempre um (ou mais!) pequeno ser lá em casa. E se, no início, a falta de disponibilidade se prende com o cansaço das noites mal dormidas, depois passamos a ter o factor "criança que já consegue sair da cama sozinha e entrar pelo quarto dos pais adentro". A possibilidade de infligir esse tipo de trauma a uma criança e ser tema de conversa no recreio da escola (ou pior, no gabinete do director da escola), também não é algo que eleve a libido de uma mãe.

    Mas há muitas outras coisas que afectam gravemente a disponibilidade sexual e que são, basicamente, todas as novas tarefas que vêm com a criançada:

    - preparação de refeições nutritivas (não dá para jantar cereais e congelados todos os dias...);
    - aumento da lide doméstica em geral (roupa, mais roupa, mais lençóis e resguardos, mais babetes encardidos, mais banana colada ao chão, mais pastilha elástica presa no cabelo, mais uma nódoa de chocolate no sofá...);
    - idas e vindas dos colégios, escolas e actividades extracurriculares;
    - ajuda nos trabalhos de casa, no projecto de ciências, no trabalho de arte plástica que a professora pediu aos pais para fazerem...
    - tempo para efectivamente brincar com as crianças, porque foi para isso que as tivemos, não?

    Por isso, se achavam que antes de ter filhos tinham uma vida muito ocupada, entre o trabalho, o ginásio e a vida social, deixem-me só rir um bocadinho.
    Agora a sério: lamento ser eu a portadora de tais notícias, mas para todos os que ainda não são pais é bom que estejam conscientes que o sexo deixa mesmo de ser uma prioridade. Não por falta de desejo, não por monotonia, apenas e só porque, quando os miúdos estão finalmente na cama, os pais mal têm energia para lavar os dentes. A solução é uma enorme dose de criatividade para encontrar sítios e horários à prova de criança. Aqui ficam algumas sugestões:

    - aproveitar o período das sestas
    - pedir à baby-sitter para levá-los num loooongo passeio
    - pôr o despertador para 20 minutos mais cedo
    - um duche rápido, enquanto eles vêm um filme na sala
    - deixá-los ir brincar para a rua
    - aproveitar que as visitas estão lá em casa e ir "buscar umas cadeiras à arrecadação"
    - fugir para uma divisão recôndita durante um almoço de família
    - passar por um motel à hora de almoço.

    É uma lista em constante construção, por isso, não se deixem limitar por ela e lembrem-se que, embora deixe de ser uma prioridade para as mães, o sexo nunca deixa de ser uma prioridade para os pais. E é, sem dúvida, uma das coisas mais importantes para uma relação feliz.




  • Dormir, ah dormir... Essa função básica do corpo humano que, como tudo na vida, só valorizamos quando não temos. Claro que qualquer pessoa sabe que, quando tem filhos, vai inevitavelmente dormir menos. Primeiro, porque o recém-nascido acorda de três em três horas, depois, porque deixou cair a chucha ou porque ficou doente ou porque teve pesadelos ou ainda porque fez xixi na cama. É normal, faz parte e não é segredo para ninguém, certo? Errado!
    Não é só nessas alturas que uma mãe (e muitas vezes um pai) não dorme. É constantemente, desde que a criança nasce até ao dia em que sai de casa. A verdade que ninguém nos conta é que, com a maternidade, nasce uma capacidade auditiva paranormal, que faz com que consigamos ouvir o nosso filho gemer mesmo a duas divisões de distância e com a porta do quarto fechada, e isso provoca graves perturbações no sono. Também nasce um sexto sentido, que nos acorda durante a noite para nos dizer que ele está todo destapado, está a começar a chocar alguma virose ou esqueceu-se de colocar o despertador para ir à visita de estudo cuja partida é às sete da manhã. E se nenhuma destas situações ocorrer e estivermos convencidas de que vamos dormir umas oito horinhas de seguida, os filhos arranjam maneira de, logo nesse raro dia, que geralmente ocorre durante o fim-de-semana, acordarem mais cedo.
    Assim, dormir uma noite realmente descansada começa a ser visto por uma mãe como um luxo arábico. Algo que um dia experimentámos, mas que agora não passa de uma ténue recordação. Como a recordação daquelas férias maravilhosas, por exemplo. Sabemos que elas aconteceram, temos fotografias que o atestam, lembramo-nos do sabor do Mojito, da música que estava a tocar, mas nada daquilo existe para lá da nossa memória. E é por isso que a maioria das mães (e muitos pais), quando conseguem recambiar a prole para casa dos avós, tios, amigos ou para um mero campo de férias, preferem dormir a qualquer outra actividade nocturna.
    Os amigos que não são pais ficam chocadíssimos com isto. Mas anda lá beber um copo, que estás sem os miúdos. Não sejas anti-social. Há quanto tempo não sais à noite? Também faz bem descontrair um bocado, dar um pezinho de dança... Esqueçam! Não há hesitação: entre ir para uma noitada com amigos e demorar três dias a recuperar (dois dos quais já na presença das nossas pequenas pestes hiperactivas) e poder dormir um sono retemperador pela primeira vez em meses, a escolha é óbvia. Aliás, já me aconteceu deixar o miúdo em casa dos avós para poder ir a um evento qualquer e, à última da hora, trocar a minissaia pelo pijama e enroscar-me no meu marido a ver um bom filme, seguido de 10 horinhas a dormir.
    E se for para ter uma noite de sexo escaldante? Também não. Acreditem: para uma mãe cansada, o prazer supremo é apenas e só uma cama fofinha num quarto silencioso, sem despertadores electrónicos ou humanos. Talvez amanhã, durante a sesta ou quando a criançada estiver naquela festa de anos. Até porque o sexo escaldante foi o que nos colocou neste estado, não foi?


    Bela Adormecida ©Filipa Silva
  • Embora a gravidez seja uma das alturas mais bonitas na vida de uma mulher, confesso que não sou fã da coisa. Sim, há todas aquelas experiências maravilhosas como o facto incrível de estar a gerar uma vida, sentir o bebé a mexer, ouvir o seu coração quando vamos às consultas de obstetrícia ou passar à frente na fila do supermercado, mas sinceramente, tudo o resto é um rol de interdições, indisposições e preocupações. Ora é verificar se a salada está bem lavada, ora é acordar duas vezes por noite porque a bexiga não aguenta, ora é ter de dizer não àquele segundo copo de vinho. Tudo isto ao mesmo tempo que se lida com uma profunda desregulação hormonal que nos transforma em seis mulheres diferentes durante as mesmas 24 horas: de chorona a irascível, de impaciente a ansiosa, de meiga a intolerante. (Nota para os maridos que gostavam de ser poligâmicos: esta é a altura da vida em que vão ficar a saber porque é que a poligamia NÃO resulta. Uma mulher é suficiente para vos dar cabo da cabeça.)

    Se tudo isto já é complicado quando podemos chegar a casa e descansar no sofá (sim, porque uma grávida sente-se inevitavelmente mais cansada e não é por acaso que existem filas e lugares especiais para elas), o verdadeiro desafio começa quando já se tem um filho. O irmão mais velho do belíssimo ser que estamos cuidadosamente a gerar não se compadece com o nosso estado de graça. Aliás, na maior parte das vezes, parece uma daquelas pessoas que refilam se uma grávida lhes passa à frente. Não percebe porque é que não podemos dar colo, porque é que não rebolamos no chão, porque é que já não partilhamos a mesma colher. Além do mais, se tiver menos de quatro ou cinco anos, ainda é, ele próprio, um bebé: tem de ser vigiado, alimentado, vestido (com roupas que realmente combinem e sejam adequadas ao estado do tempo) e repreendido.

    E é então que uma mãe passa a viver os meses de gravidez entre o "Estou tão feliz, era mesmo isto que eu queria!" e o "O que é que me passou pela cabeça para engravidar outra vez?". É um sentimento perfeitamente natural. Porque estamos mais cansadas, mais preocupadas e, sobretudo, mais conscientes do que é ter um recém-nascido. Torna-se inevitável ficarmos assustadas com a gestão do tempo e da família quando o novo elemento chegar. Ainda estão muito frescas na memória as noites mal dormidas e a rapidez com que o tempo passa quando se está em casa com um ser que aparentemente não dá trabalho nenhum. Quando nasceu o meu primeiro filho, tive uma crise de exaustão ao fim de dez dias - dores no corpo, arrepios, falta de apetite - o que me faz entrar constantemente em pânico com a ideia de passar por tudo outra vez, e agora com uma criança de dois anos e pouco a querer constantemente a minha atenção. Mas depois, olho para o seu álbum de bebé, sinto outro pontapé nas entranhas e sorrio de plena felicidade. Que sorte poder passar por esta experiência outra vez! É um estado um bocado esquizofrénico. Ou se calhar é das hormonas...

  • Há uns anos li uma frase do comediante Jerry Seinfeld que dizia algo como " ter uma criança de dois anos em casa é como usar um liquidificador sem tampa". Na altura achei a frase divertidíssima, mas só hoje a entendo na perfeição. É que, de facto, a não ser que tenhamos uma empregada interna, daquelas como nos filmes, que ficam lá a dormir e tudo, é humanamente impossível manter a casa limpa e arrumada quando se tem filhos menores de seis anos (que os outros já têm idade para limpar muito do que sujaram e arrumar os brinquedos antes de ir para a cama).

    Se acabámos de passar a esfregona no chão, eles entram pela divisão adentro e espezinham tudo; se acabámos de aspirar eles vão comer bolachas; se mudámos os lençóis de manhã, eles fazem chichi na cama à noite; se vestimos uma camisola nova, eles vêm dar-nos um abraço com as mãos pegajosas; se acabámos de pôr os Legos todos na caixa, eles despejam o cesto dos puzzles. Acreditem, é como uma daquelas leis de Murphy.

    Assim, uma mãe (e um pai, que hoje em dia já costumam ajudar nas tarefas domésticas), tem duas opções:

    1) virar Mãezilla e desatar aos gritos todas as noites, sobretudo por altura das refeições, passando o serão a limpar, a arrumar e a procurar a única peça de roupa que não tem bocados de comida incrustada, para poder vestir na reunião da manhã seguinte.

    2) desistir e interiorizar o ditado "se não os podes vencer, junta-te a eles", abraçando a desarrumação como um estado natural e repetindo mentalmente aquele famoso slogan do Skip "é bom sujar-se", nomeadamente quando os colegas repararem que temos um bocado de banana esmagada nas calças.

    Como a única satisfação que se pode retirar da primeira hipótese é poder contemplar a casa toda arrumadinha nos minutos que antecedem a nossa queda na cama, já que, na manhã seguinte, o caos recomeça em todo o seu esplendor por altura da primeira papa do dia e ninguém deixa de ser promovido por ter uma nódoa na camisa, optei pela segunda, para escândalo da minha família, que ainda por cima sofre de "arrumadismo" agudo. Bem vejo os seus olhares horrorizados quando entram na sala de estar, agora convertida em parque de diversões do pequeno T. Oferecem-se discretamente para ajudar, para varrer, para apanhar os brinquedos do chão, e eu agradeço e deixo-os sentirem-se úteis, embora saiba que, assim que eles saírem, o meu terrorista vai minar tudo em três tempos e eu vou fechar os olhos às dedadas nas portas, respirar fundo e perceber que, na verdade, prefiro estar ali com ele a espalhar cubos pelo chão, do que na cozinha agarrada aos instrumentos de limpeza. Não é fácil, vai contra o meu instinto, mas é a única maneira de sobreviver aos primeiros anos de uma criança.

    E se, de repente, aparecerem visitas ou tiver de chamar um médico ao domicílio e a parede ainda estiver salpicada de sopa (sim, há pratos que voam das cadeirinhas em dois segundos), em vez de baixar a cabeça envergonhada perguntando a mim própria "o que é que vão pensar de mim", vou sorrir e deixar que os meus olhos digam "desculpe a desarrumação, mas nós vivemos aqui".





  • E para isso, está a chegar um novo portal! Façam já o registo e preparem-se para um mundo de coisas que todas as mamãs (e papás) querem saber.

    A minha mãe é a mais babada

  • Ao longo dos anos, sobretudo dos últimos dois, tenho vindo a detectar vários padrões de mães, que podem ser mais ou menos agrupadas em oito tipos (ou estereótipos) distintos. Desde as mais fundamentalistas, às mais relaxadas, há mães para todos os gostos. Algumas têm um bocadinho de várias, formando misturas explosivas como a "Mãe Aleijada e Hipocondríaca" ou hilariantes como a "Mãe Hippie e Aluada". Mas o mais importante é que são todas mães, ou seja, seres superiores que geram vidas e transbordam amor. Cada uma à sua maneira.

    Mãe Aleijada - O termo pode parecer depreciativo e, na verdade, é mesmo, porque este é o tipo de mãe mais irritante. É a mãe que ao fim de uma semana de maternidade acha que já sabe tudo melhor que ninguém e não compreende porque é que existe qualquer outra actividade na vida que não seja ser Mãe. Está sempre a mandar palpites e a mostrar como os seus métodos são os mais correctos (têm de ser os mais correctos, porque ela já leu todos os livros que interessam e está a fazer tudo como manda a praxe!).

    Antes de ser mãe até era uma pessoa normal, mas depois o seu mundo mudou: agora só as crianças interessam e esse é o único tema sobre o qual gosta de falar- o trabalho é um mero local onde angaria audiência para os seus monólogos sobre puericultura; o marido é um escravo que serve para carregar os sacos, pagar as contas e acompanhá-la nos inúmeros eventos sociais, sempre relacionados com crianças; as amigas só continuam na sua vida se tiverem filhos, já que as outras são umas infelizes que não compreendem o que é ser mãe e não estão interessadas nas suas histórias sobre partos, amamentação e colégios. Por falar nisso, a sua maior preocupação, desde que a criança nasce, é exactamente o colégio que irá frequentar, porque os primeiros anos de educação são determinantes e era o que faltava o colégio dos filhos da Bernarda ter aulas de violino e o dela não. Pertence a tudo o que é grupo de mães, conhece todos os blogues e já experimentou todas as actividades relacionadas com crianças, desde que aprovadas pelas Associação Portuguesa de Pediatria. Escusado será dizer que é supercompetitiva, os filhos são sempre os melhores e tem horror às Mães Hippies, Descontraídas ou a quem quer que se atreva a dizer que há coisas mais interessantes na vida do que bebés.





    Mãe Aluada - Esta é uma mãe de coração na terra mas de cabeça no ar, já desde a gravidez. São comuns episódios como fumar porque se esqueceu de que estava grávida ou só fazer a mala da maternidade quando lhe rebentaram as águas. É a mãe que às duas da manhã repara que não há mais fraldas, deixa queimar a sopa, troca a hora dos antibióticos e precisa de lembretes no telemóvel para não se esquecer do aniversário da criança. Apesar de tudo é uma mãe carinhosa, brincalhona e presente... quando se lembra de ir buscar os filhos à escola. Aliás, desde cedo que os seus filhos sabem que, se precisarem de alguma coisa realmente importante, género fato para a festa de Natal, o melhor é pedirem à avó. O que a deixa um bocado frustrada porque normalmente é uma pessoa ligada às artes e adora fazer essas coisas.





    Mãe Descontraída - A mãe em que todas nós, eventualmente, nos tornamos - sobretudo a partir do terceiro filho. É uma a mãe rebelde, que lê os livros apenas para se certificar que não vai fazer nada daquilo, que nunca viu um esterilizador e que passa a chucha pela camisa quando esta cai ao chão. O seu lema é "no tempo das nossas mães não havia nada destas modernices e sobrevivemos". Não é grande fã da amamentação, deixa o bebé com a primeira pessoa que se oferecer e está-se a borrifar se as visitas lavam as mãos antes de pegarem no rebento. É a mãe que vemos na praia a sorrir enquanto os miúdos comem areia e que só liga ao pediatra quando a febre não baixa há mais de três dias. Quando os filhos crescem, esta mãe deixa-os fazer coisas impensáveis como trepar às árvores, brincar na rua, andar de metro ou escolher as suas próprias actividades extra-curriculares. São vistas como totalmente irresponsáveis por umas, e um exemplo a seguir por outras.





    Mãe Fashion - O sonho de uma mãe fashion era ser a Victoria Beckam ou a Angelina Jolie, cujas aparições públicas são sempre dignas da capa da Vogue e lançam a próxima tendência em acessórios para mães e crianças. É uma mãe que não deixa nada ao acaso: do biberão ao carrinho de passeio, tudo tem de ser de uma marca trendy ou de algum designer de nome impronunciável; o anúncio de nascimento é de uma originalidade de fazer corar o Stefan Sagmeister; as fotografias que publica (preferencialmente no Instagram) parecem tiradas numa sessão fotográfica profissional e o quarto da criança é, no mínimo, concebido por um designer de interiores (quando ela própria ou o marido não são os autores do projecto, já que, por norma, esta mãe tem profissões ligadas ao design, arquitectura ou moda). Qualquer mãe que ache que está muita gira naquele dia é imediatamente remetida para a sua insignificância quando se coloca ao lado de uma Mãe Fashion. Por isso, é um tipo de mãe a evitar quando estamos com a auto-estima em baixo.





    Mãe Hipocondríaca - Esta mãe é o pesadelo de qualquer pediatra. Aliás, já tinha sido o pesadelo do obstetra, que, por sua causa, mudou três vezes de número de telefone no espaço de nove meses. É a mãe que não pode ler nada, pois sente logo (ou vê nas suas crias) todos os sintomas. Mas o pior é que está sempre à procura de informação sobre doenças e epidemias. Ao primeiro espirro enrola a criança num cobertor polar, nunca lhe veste menos de três peças de roupa e tem termómetros em todas as divisões da casa para garantir uma temperatura adequada a cada momento. As visitas têm de se descalçar e desinfectar as mãos ainda à porta de casa e, se tiverem uma narina entupida, o melhor é nem aparecerem. Os seus melhores amigos são os esterilizadores, os purificadores de ar e as toalhitas desinfectantes, e o seu maior pesadelo o infantário. Vive em constante ansiedade e, quando os filhos já têm trinta anos, continua a perguntar se andam bem agasalhados e se tomaram as vitaminas.








    Mãe Hippie - Uma mãe totalmente Zen, adepta do parto natural, de preferência dentro de água, e da amamentação até à idade escolar. Os filhos só usam fraldas de pano, roupa em segunda mão e dormem com os pais até implorarem para ir para as suas próprias camas. Evitam a vacinação, a televisão e a inovação em geral. Por regra, são vegetarianas ou macrobióticas e os seus filhos só vão descobrir as maravilhas de um Happy Meal quando tiverem idade para irem ao centro comercial sozinhos. Ou se a educadora de infância for uma rebelde e lhes der a provar comida normal à revelia da Mãe, por já não aguentar o olhar triste das crianças a olhar para uma sandes de tofu, enquanto os outros meninos se lambuzam com fiambre e bolachas de chocolate.


    Carregam os seus filhos em panos até aos três anos, frequentam aulas de Baby Yoga e só praticam actividades ao ar livre e em comunhão com a Grande Mãe Natureza. O seu sonho é viver numa quinta, o mais longe possível da civilização ocidental, onde as crianças possam ser livres e brincar nuas pelos campos.






    Mãe Vai-com-as-outras - Esta é uma mãe extremamente insegura e que, por isso mesmo, está sempre à procura de conselhos e de aprovação alheia. Se ouve falar num novo biberão que previne as cólicas, deita logo os seus fora. Se ouve dizer que o melhor colégio é o X, trata logo de transferir os miúdos. Se o mãe do João fez a festa de anos no sítio Y e os meninos adoraram, ela também terá de fazer. Raramente segue o seu instinto e é altamente influenciável pelas Mães Aleijadas, que tudo sabem e tudo partilham, e pela sua própria mãe. Está sempre a comparar os seus filhos com os filhos dos outros, para se certificar de que está a fazer tudo como deve ser. Não é raro ter crises de choro à noite, enquanto se interroga se será uma boa mãe e se o seu rebento será feliz, quando bastava olhar para ele e para o seu ar saudável e bem-disposto para saber a resposta.






    Mãezilla - Sim, para os mais leigos em matéria de Banda Desenhada, é a conjugação da palavras Mãe com Godzilla, o destruidor monstro japonês. Este é o tipo de mãe que está sempre em stress, a gritar com os filhos ou a implementar regras típicas de uma academia militar. Tal como o monstro, não tem paciência para seres humanos em geral e crianças em particular, sobretudo a partir do momento em que começam a falar e a ter vontade própria. Normalmente a Mãezilla engravidou por obrigação, pressão social ou acidente e está desejosa de que os filhos cresçam depressa e lhe desamparem a loja para poder voltar a ter vida. Também tem os seus momentos de ternura, embora raros e em privado, não vá alguém reparar que tem um coração. É grande adepta dos colégios internos e dos acampamentos de férias.


    (Quase todas as mães têm o seu momento Mãezilla, mais cedo ou mais tarde.)




  • Quando se tem um filho o coração começa a crescer. É um facto. Só assim é possível guardar um amor tão grande, tão poderoso e tão incondicional. E é indiferente se são filhos biológicos ou não, porque uma mãe quando é mãe sabe que não interessa de onde veio o filho a partir do momento em que lhe entra pelo coração adentro.
    Só que o mais engraçado é que, com o passar do tempo, uma mãe sente literal e fisicamente o coração a crescer. É uma dor pequenina e boa que normalmente aparece quando estamos distraídas a contemplar o nosso rebento ou a vê-lo fazer uma gracinha nova. Pode também surgir a meio da noite, despertando-nos em sobressalto. É como um aperto mas ao contrário e muitas vezes vem acompanhado de uma lágrima ou de um soluçar.  Por vezes, chega a tornar-se assustador, porque parece que o coração vai explodir de tanta emoção. Nesses dias, acreditamos que a coisa acabou, que o coração já cresceu tudo o que tinha para crescer, que nenhum ser humano aguenta um amor assim, apenas para sermos surpreendidas, meses mais tarde, por outra dorzinha de crescimento. E é então que percebemos que esta máquina incrível que nos mantem vivos, o nosso coração, é elástico. Mas elástico até ao infinito, até ao fim dos nossos dias, sempre pronto a receber mais e mais amor. E quantos mais filhos tivermos, mais espaço ele arranja para os acolher e embalar com o seu ritmo metódico, doce e familiar. Tum-tum, tum-tum , tum-tum.
    O coração de uma mãe é elástico. Elástico até ao infinito, porque o seu amor nunca acaba.

    Nuvem de estimação ©Maria Imaginário


  • Todas as mães, por mais extremosas que sejam, já sentiram alguma vez na vida o enorme desejo de tirar as pilhas aos filhos. Seja porque naquele dia a criança está num dia não, fazendo birras atrás de birras (sim, as crianças também têm direito a ter dias não), seja porque estamos tão, mas tão cansadas que não conseguimos aguentar mais um jogo, mais um minuto no parque, mais um "Ó mãããeeee" gritado do outro lado da casa.
    É que as crianças, em geral, têm energia suficiente para dar cabo de um adulto em menos de duas horas e, por muita vontade de estar com elas que se tenha, há dias em que simplesmente só nos apetece fugir, seja durante a semana, seja em períodos de (suposto) descanso.
    Durante a semana vivemos entre o sentimento de culpa de passar o dia longe dos nossos filhos e o alívio secreto de termos um local de trabalho que nos protege da esmagadora rotina de cuidar do lar e de uma criança durante um dia inteiro. (Nalgumas mulheres este sentimento surge ainda durante a licença de maternidade, altura da vida em que os dias nos parecem todos iguais e a falta de vida social se pode tornar esmagadora.) Também vivemos entre os dias em que encaramos as tarefas de chegar a casa, dar banhos, fazer jantar e inventar tempo para brincar com as crianças com prazer e satisfação maternal e os outros, em que só nos apetece adiantar os relógios para a hora de ir para a cama, de modo a podermos "desmaiar" no sofá ou em que pedimos a todos os santinhos que as nossas crias não façam nada que nos possa transformar numa "Mãezilla".
    E se durante os dias de trabalho estes sentimentos são bastante compreensíveis, sobretudo para quem tem vidas profissionais muito exigentes, desengane-se quem acha que ao fim-de-semana eles não nos assombram.
    Ao fim-de-semana, teoricamente, temos tempo para fazer tudo com calma, dar todos os passeios prometidos e fazer os programas de família com que sonhámos durante a semana, mas também é a altura em que passamos mais horas seguidas com os miúdos (48 horas mais precisamente). Assim, é inevitável sentir um desejo secreto de que eles fiquem a dormir até mais tarde e vão brincar para a sala sozinhos (de preferência em silêncio). Ou que prolonguem as sestas por mais de uma hora e meia. Sempre ganhamos esse tempo para recuperar o fôlego de uma manhã extenuante, terminar alguma tarefa doméstica ou simplesmente para fazer o amor, por exemplo.
    Sem sesta, não há filme, puzzle ou iPad que nos garanta mais de meia hora de descanso, já que, até uma certa idade, a concentração de uma criança numa única actividade é sol de pouca dura e parece que, quanto mais coisas queremos fazer (ou não fazer!), mais ela solicita a nossa atenção. Nesses casos, e como de facto não dá mesmo para lhes tirar as pilhas, resta-nos ter uns avós ou tios extremosos que se ofereçam para ir dar uma voltinha com os meninos ou (e a esses não há dinheiro que pague) os levem mesmo durante um dia inteiro. Uma festa de anos ou o convite para passar o dia em casa de um amiguinho também começam a ser vistos como pequenas bênçãos para os pais de maiores de seis anos.
    Pode haver quem diga que ter estes sentimentos é ser uma má mãe, que se não queríamos ter trabalho não devíamos ter tido filhos, que as crianças não têm culpa e precisam da atenção dos pais, blá, blá, blá. Para mim, isso são comentários de "Mães Aleijadas" ou de quem ainda não tem filhos. Desejar, de vez em quando, que existisse um botão que nos  transportasse para uma realidade sem obrigações maternais durante umas horas é normal, é legítimo e nenhuma de nós se deve sentir mal por isso. Se bem me lembro, quando era miúda, também desejava que os meus pais desaparecessem durante um bocadinho para eu poder fazer o que bem me apetecia. 




  • Bem sei que é difícil para grande parte dos adultos conceber ir para a praia antes do meio dia. Primeiro, porque a praia faz-se ao fim-de-semana ou nas férias, o que implica não ter horas para acordar. E segundo, porque de manhã ainda está fresco, a areia ainda está molhada e as traineiras ainda estão a regressar às docas.
    Pois. Mas isso é antes de ter filhos. Quem tem filhos, quer queira quer não, tem de redescobrir as maravilhas de fazer praia de manhã. E não são apenas os pais conscientes dos malefícios dos raios solares. São também todos aqueles que têm filhos que acordam pelas sete. Ou seja, milhares de pessoas.
    Mas até há coisas interessantes a acontecer numa praia antes do meio dia. Uma delas é vermos que não fomos os primeiros a assentar arraiais. Há sempre pais que estão com olheiras maiores do que as nossas e, pelas nove da manhã, já foram duas vezes ao banho. São eles que nos fazem soltar um sorriso ao perceber que afinal a nossa cria não é um demónio tão madrugador como parece.
    Outra é a cumplicidade que se vive entre os diferentes casais. Há sempre uma troca de olhares, um aceno, um bom dia que contém todo um discurso do tipo «Cá estamos nós, a fazer mais um pequeno sacrifício pelos nossos filhotes. A última vez que estive na praia a esta hora foi no Verão de 2005, a curtir o final de uma bebedeira, depois de fechar a discoteca. Ah, bons velhos tempos... Mas não me interpretem mal, adoro os meus filhos, são uns tesourinhos. Podiam era dormir até às dez. Vá, até às nove já era bom.».
    Depois, também é engraçado constatar o diferente tipo de equipamento que cada família leva. São poucos os que se ficam pelo mero chapéu-de-sol e toalhas. Agora há tendas de diferentes tamanhos e feitios, com tecido anti-UV, resistente a ventos e tempestades, com o fundo acolchoado para deitar o bebé, enfim, já para não falar dos brinquedos, das bóias que não se viram, das braçadeiras auto-insufláveis, dos fatos de licra completos (não vá a criança apanhar um raio de sol), e tudo isto transportado em carrinhos de bebé com rodas todo-o-terreno, ou carrinhos de compras ou até carrinhos-de-mão (juro que vi!).
    Por fim, há um espectáculo dentro do espectáculo nas praias antes do meio dia que consiste em ver alguns pais a tentarem fazer as mesmas coisas que faziam antes de terem uma prole que requer vigilância constante, nomeadamente: ler um livro (um prémio para quem conseguir sair da primeira página), uma revista (um prémio se conseguirem que nenhuma página seja rasgada), estar deitado a apanhar sol (ahahahahah!) ou comer um gelado sem ter de o dividir com um pequeno ser baboso. Digno de se ver.
    Ao meio dia, quando os comuns mortais finalmente chegam à praia, ainda com os olhos inchados de tanto dormir, o hálito fresco e a roupa de praia incólume, já estão os pais a ir embora, cabelos desgrenhados, bocados de bolacha colados aos calções, suor a escorrer pela cara depois de uma hora a tentar fechar a maldita tenda que se monta em dois minutos, um bebé ao colo, outro a ser puxado pelo braço, enquanto esperneia porque quer ir dar mais um mergulho, meia hora para enfiar tudo no carro e, finalmente, ir para casa descansar, enquanto as crianças dormem a sesta ou se entretêm com um dos cinco mil brinquedos que trouxeram para as férias.
    Os que resistem e tentam passar o dia inteiro à beira-mar, levam com olhares incomodadíssimos. Olhares que dizem «Acabou-se o sossego» sempre que uma criança rasa a toalha ou lhes salpica as costas ao mergulhar no mar. Também já fui assim. E agora estou a pagá-las.