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  •      O desafio foi lançado pelo jornal i: como é que eu, enquanto autora, tenho sido afectada pela crise que vivemos. Esta foi a minha resposta, publicada na edição de 25 de Agosto do dito jornal:


         «No que toca à criação literária, e embora nos meus livros procure explorar temas mais intemporais e goste de contar histórias que deixem os leitores com um sorriso, é impossível ficar indiferente às angústias e aos sentimentos de medo e de revolta característicos de uma crise como a que vivemos. Ela acaba, assim, por influenciar o que escrevo, nomeadamente os textos mais curtos ou de opinião, onde reflicto sobre a actualidade e as pequenas coisas do dia-a-dia.
         No que toca ao acesso e ao apoio à Cultura, durante uma crise, é inevitável assistir-se a uma diminuição dos mesmos. Os governos cortam os programas, as pessoas não têm dinheiro sequer para as coisas básicas, a pirataria aumenta, os artistas precisam de arranjar outros empregos para pagar as contas, os promotores culturais não arriscam... No meu caso pessoal, acabou por ser um factor decisivo para lançar o meu segundo livro de forma independente. As próprias editoras, que cada vez mais são geridas como um negócio, não têm margem de manobra para apostar em projectos sem garantia de retorno.
         Infelizmente, enquanto a Cultura continuar a ser vista como um bem supérfulo, em vez de ser vista como uma vacina contra a ignorância, a intolerância e a maldade, vai sempre ser a primeira a sofrer com uma crise.»


    Podem ler a peça do jornalista Duarte Garrido aqui
  •      O que é que é mais difícil do que parece? Escrever.
         Escrever aqui; escrever no outro blog em inglês; escrever na página do Facebook em ambas as línguas; escrever milhares de emails a promover o meu livro novo (para bloggers, sites de livros, sites de livros baratos, sites de livros baratos em formato electrónico, sites que fazem tweets a promover os livros baratos...); escrever a amigos a pedir que passem a palavra sobre o mesmo; escrever no meu diário as inúmeras pequenas conquistas do Tiago ou as inúmeras pequenas coisas que constroem a minha vida; escrever cartas à minha professora primária, que está a ficar muito velhinha e doente ao ponto de, ao fim de vinte cinco anos de correspondência, já não me conseguir escrever de volta; escrever notas para os próximos livros; escrever listas do que tenho de fazer e listas de compras e listas de temas para outras crónicas; e, por fim, escrever títulos e textos comerciais, que no fundo é o meu trabalho, e o único que, por enquanto, dá para pagar as contas.
         É que, às vezes, as palavras cansam, porque dançam à nossa frente mesmo quando fechamos os olhos (sobretudo quando fechamos os olhos) e fazem cócegas nas pontas dos dedos para que nos levantemos a meio da noite e as coloquemos num sítio seguro, senão, já se sabe, na manhã seguinte não restará nada daquela que ia ser a grande frase da nossa vida. Às vezes as palavras cansam porque não se juntam, assim, quando nós queremos. Porque há parágrafos que nos travam o raciocínio e os quais temos de rescrever vezes em conta. Porque não se consegue carregar num botão e fazer brotar saídas espirituosas sempre que nos dá jeito. Porque há palavras que, simplesmente, não se estão a dar bem umas com as outras ou com a pontuação que lhes arranjámos.
          E, às vezes, as palavras cansam tanto que nem conseguimos falar, o que não quer dizer que estejamos chateados, alheados ou desinteressados de quem nos rodeia.  Precisamos de cozinhar, martelar, jardinar, fazer crochet, fumar um cigarro, qualquer coisa que nos ocupe momentaneamente as mãos, na esperança de que as palavras desistam de nos baralhar o cérebro e desapareçam durante um bocadinho. Pelo menos até ganharmos coragem para as deixar cair num teclado ou num pedaço de papel.
        Sim, isto é muito mais difícil do que parece. Mas hoje, depois de escrever, ficou um bocadinho mais fácil.




     


  •      É raro ficar presa a um poema. Presa no sentido de não o querer largar; de ler e reler só para confirmar que cada palavra está no lugar certo e contém tantas outras palavras dentro. Ler e reler só por prazer, como quem admira o mesmo quadro ou ouve a mesma música vezes sem conta. Acontece-me com "monstros" como O'Neill, Eugénio de Andrade, Pessoa, Cesário ou Chico Buarque. E aconteceu-me recentemente com um poema de um amigo escritor, Pedro Guilherme-Moreira, vencedor do concurso Textos de Amor do Museu Nacional da Imprensa. Podem ler outras coisas igualmente belas no seu blog.

    Plátano

    que nem o teu desespero
    nas tardes frias de chuva
    nem essas mãos a tremer
    sobre as cartas que escrevi
    nem os plátanos
    que te deixam no outono
    nem a vigília do inferno
    nem a indolência do céu
    nem a dor da madrugada
    nem dúvidas
    sobre o que nasce
    certezas
    sobre o que morre
    nem memórias, por mais doces,
    nem absolutamente nada

    meu amor te dê a dúvida
    de que te pertenço e fico
    para lá do fim da noite
    e que até no tempo infindo

    só os teus lábios me abrandam
    só os teus beijos me calam

    PG-M 2012





  • Porque cada vez me inquieta mais a situação política do meu país (bem mais do que o desastre económico), deixo aqui um texto que espelha a minha revolta. São palavras de António Lobo Antunes, porque jamais o conseguiria dizer melhor:

    Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida.

    Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento. Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos. Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos.

    Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade. O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade as vezes é hereditário, dúzias deles.

    Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão. O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal. Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito. Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver:

    - Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro

    - Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima

    - Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo

    que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade.

    As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas,
    ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente. Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente  indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos.

    Vale e Azevedo para os Jerónimos, já!

    Loureiro para o Panteão já!

    Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já!

    Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha.

    Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram. Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito. Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis. Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair. Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano. Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos. Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar. Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. 
    Agradeçam este solzinho.

    Agradeçam a Linha Branca.

    Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar.

    Abaixo o Bem-Estar.

    Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval. Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros. Proíbam-se os lamentos injustos. Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa. Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto. Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar?

    O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos uns aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.