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  • Todas as mães, por mais extremosas que sejam, já sentiram alguma vez na vida o enorme desejo de tirar as pilhas aos filhos. Seja porque naquele dia a criança está num dia não, fazendo birras atrás de birras (sim, as crianças também têm direito a ter dias não), seja porque estamos tão, mas tão cansadas que não conseguimos aguentar mais um jogo, mais um minuto no parque, mais um "Ó mãããeeee" gritado do outro lado da casa.
    É que as crianças, em geral, têm energia suficiente para dar cabo de um adulto em menos de duas horas e, por muita vontade de estar com elas que se tenha, há dias em que simplesmente só nos apetece fugir, seja durante a semana, seja em períodos de (suposto) descanso.
    Durante a semana vivemos entre o sentimento de culpa de passar o dia longe dos nossos filhos e o alívio secreto de termos um local de trabalho que nos protege da esmagadora rotina de cuidar do lar e de uma criança durante um dia inteiro. (Nalgumas mulheres este sentimento surge ainda durante a licença de maternidade, altura da vida em que os dias nos parecem todos iguais e a falta de vida social se pode tornar esmagadora.) Também vivemos entre os dias em que encaramos as tarefas de chegar a casa, dar banhos, fazer jantar e inventar tempo para brincar com as crianças com prazer e satisfação maternal e os outros, em que só nos apetece adiantar os relógios para a hora de ir para a cama, de modo a podermos "desmaiar" no sofá ou em que pedimos a todos os santinhos que as nossas crias não façam nada que nos possa transformar numa "Mãezilla".
    E se durante os dias de trabalho estes sentimentos são bastante compreensíveis, sobretudo para quem tem vidas profissionais muito exigentes, desengane-se quem acha que ao fim-de-semana eles não nos assombram.
    Ao fim-de-semana, teoricamente, temos tempo para fazer tudo com calma, dar todos os passeios prometidos e fazer os programas de família com que sonhámos durante a semana, mas também é a altura em que passamos mais horas seguidas com os miúdos (48 horas mais precisamente). Assim, é inevitável sentir um desejo secreto de que eles fiquem a dormir até mais tarde e vão brincar para a sala sozinhos (de preferência em silêncio). Ou que prolonguem as sestas por mais de uma hora e meia. Sempre ganhamos esse tempo para recuperar o fôlego de uma manhã extenuante, terminar alguma tarefa doméstica ou simplesmente para fazer o amor, por exemplo.
    Sem sesta, não há filme, puzzle ou iPad que nos garanta mais de meia hora de descanso, já que, até uma certa idade, a concentração de uma criança numa única actividade é sol de pouca dura e parece que, quanto mais coisas queremos fazer (ou não fazer!), mais ela solicita a nossa atenção. Nesses casos, e como de facto não dá mesmo para lhes tirar as pilhas, resta-nos ter uns avós ou tios extremosos que se ofereçam para ir dar uma voltinha com os meninos ou (e a esses não há dinheiro que pague) os levem mesmo durante um dia inteiro. Uma festa de anos ou o convite para passar o dia em casa de um amiguinho também começam a ser vistos como pequenas bênçãos para os pais de maiores de seis anos.
    Pode haver quem diga que ter estes sentimentos é ser uma má mãe, que se não queríamos ter trabalho não devíamos ter tido filhos, que as crianças não têm culpa e precisam da atenção dos pais, blá, blá, blá. Para mim, isso são comentários de "Mães Aleijadas" ou de quem ainda não tem filhos. Desejar, de vez em quando, que existisse um botão que nos  transportasse para uma realidade sem obrigações maternais durante umas horas é normal, é legítimo e nenhuma de nós se deve sentir mal por isso. Se bem me lembro, quando era miúda, também desejava que os meus pais desaparecessem durante um bocadinho para eu poder fazer o que bem me apetecia. 



  •      Desde de que uma criança nasce até...bom, até ao fim dos nossos dias, as mães têm várias fases de privação de sono. Inicialmente porque o bebé come de três em três horas, depois porque o bebé tem cólicas, mais tarde porque lhe nascem os dentes, muitas vezes porque está doente, um dia porque dorme fora de casa. Enfim, a falta de sono e o cansaço é algo que faz tão parte do papel de mãe como o ter sempre lenços de papel ou toalhetes na mala.
         E até pode haver quem diga que não, que ao fim dos primeiros anos a coisa melhora, que os seus filhos dormem a noite toda desde que nasceram, mas é simplesmente mentira. A sério, não se deixem enganar: uma mulher raramente tem uma noite de sono totalmente descansada depois de ser mãe. E começo a desconfiar que é por isso que não há muitas mulheres que consigam conciliar o cargo de maior responsabilidade do mundo que é o de Mãe, com outro quase tão importante, como por exemplo o de presidente. É que a falta de sono crónica e o cansaço acumulado retira-nos o discernimento.
         Eu já tinha ouvido que as mulheres ficam mais burras depois de serem mães, que é das hormonas, que é da gravidez, que é uma lei da natureza. Mas não: é mesmo pura e simplesmente do cansaço. Senão vejam as coisas que já dei por mim a fazer depois de ser mãe:

    • sair de casa de chinelos 
    • calçar os sapatos do miúdo ao contrário
    • ir a correr fazer uma sopa para a criança esquecendo por completo que já tinha feito uma na véspera
    • por creme de corpo em vez de champô no banho do bebé (ou vice-versa - já fiz as duas)
    • ficar com "brancas" depois das 22 horas - nomeadamente esquecer-me do que ia a dizer, não conseguir dizer o nome de um objecto ou chamar cão ao gato, só para citar alguns exemplos 
    • pintar as unhas com produto para não as roer a achar que era verniz transparente e só reparar no dia seguinte, após lavar as mãos vinte vezes e o sabor amargo nos dedos não sair.
         Eu até era uma mulher com uma boa memória, que sabia sempre onde estavam as coisas e que nunca me esquecia de nada. Agora, quando viajo, evito ser eu a guardar os passaportes e antes de sair de casa verifico se o miúdo está mesmo no carrinho. A sério, é do cansaço. Se não, que atire a primeira pedra a mãe que não tem uma história destas para contar.

    ©Pixar






  •      Quando uma criança nasce apodera-se das mães a sensação de que o seu filho é a melhor coisa do mundo. E sim, é mesmo. Mas ser a melhor coisa do mundo é diferente de ser o melhor do mundo (que isso é algo que só a Dona Celeste Aveiro pode afirmar) e é essa diferença que a maioria das mães e muitos dos pais não conseguem ver.

         A competição começa logo nos primeiros meses: o meu já dorme a noite toda; a minha nunca chora; o meu já agarra o brinquedo; até ao cúmulo de um pai me ter dito que a sua filha de um mês já sorria, quando toda a gente sabe que nos primeiros três meses de vida os sorrisos são esgares musculares involuntários.

         Mais tarde começa a comparação dos pequenos marcos do primeiro ano de vida: o meu já se senta; o meu já bate palminhas; a minha já gatinha; o meu já faz adeus; a minha já sabe andar; o meu já tem três dentes, a minha já brinca com o iPhone.
         E a coisa não acalma ao longo dos anos: a minha já não usa fraldas; o meu já conta até vinte; a minha já se veste sozinha; o meu já sabe fazer contas de multiplicar; a minha teve cinco a tudo; o meu entrou em medicina; a minha já tem dois filhos; o meu já tem seis.

         Mas mais do que o facto de se vangloriarem pelos feitos dos seus rebentos, que em muitos casos até podem ser dignos de nota e indicativos de uma inteligência ou destreza física superior, o que se torna irritante é o tom. É que não há inocência quando certas mães perguntam se o nosso bebé já anda. O objectivo é proferir um “o meu já!”, num tom triunfal, como se o marco do filho fosse, por consequência, um marco próprio, prova irrefutável do seu talento como progenitora. A questão é tão evidente que o meu marido costuma responder que o nosso Tiago, de apenas doze meses, até já lê. E acreditem que há mães que, por brevíssimos instantes, ficam a pensar se será mesmo verdade. Depois sorriem e percebem que é melhor pararem com perguntas irrelevantes.

         É que a verdade, mamãs de todo o mundo, é que isto não é uma competição. Cada criança tem o seu ritmo de aprendizagem e de evolução e o fazer ou não fazer uma gracinha não significa que tenha algum problema nem que vocês sejam melhores ou piores mães. Tenham orgulho nos vossos filhos quer figurem no quadro de honra da escola, quer fiquem em último lugar na prova de natação. Emoldurem todos os diplomas mas também aquele desenho do gato que parece uma galinha. Gabem-se do seu talento musical, mas não escondam aquele dia em que foi tão mal educado que vos apeteceu chorar. Porque mesmo em dias como esse, cada filho é o melhor filho para a sua mãe.