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Na passada sexta-feira os deputados da nossa Assembleia mostraram, mais uma vez, que um país nunca avançará enquanto a política prevalecer sobre a humanidade. Depois de um importante passo rumo não só à igualdade entre cidadãos, mas sobretudo à defesa das crianças que crescem sem pais, deram trezentos passos atrás, propondo um referendo acerca de uma lei que já tinha sido aprovada, a lei da co-adopção.
Sei que somos um país tipicamente conservador. Por muito que as leis mudem, a família tradicional para a maioria das pessoas, embora cada vez mais rara, continua a ser um pai e uma mãe, de preferência casados e, melhor ainda, casados pela Igreja. Também sei que, para muitos, a homossexualidade é uma moda, uma mania, uma doença, tudo menos aquilo que é: uma orientação sexual tão válida como a heterossexualidade. E ainda sei que somos um país de carneiros, de pessoas que acreditam em tudo o que vêm na televisão, sem reflectir, sem investigar por conta própria, e depois proferem afirmações boçais do tipo "as crianças ficam traumatizadas por terem dois pais ou duas mães". (Para essas, fica este vídeo)
Ainda assim, considero a lei da co-adopção curta. Curta mas um primeiro passo rumo à defesa dos interesses de milhares de crianças. Permite que o companheiro de alguém que um dia teve uma relação heterossexual da qual nasceu uma criança, pudesse co-adoptar essa mesma criança. No fundo, formalizar perante a lei uma relação existente. Para uns por princípio, para outros por necessidade, como no caso de o progenitor morrer e a criança, que sempre viveu com aquele casal, ser retirada à outra pessoa que a criou por não ter laços de sangue. Não é o mesmo que autorizar a adopção plena, isso sim um feito grandioso, mas já é alguma coisa.
Num país onde há 8142 crianças a viver em instituições, sem saberem o que é ser amadas por alguém, sem saberem o que é um colo, um adulto que lhes dê toda atenção, fico chocada que se proponha gastar dinheiro a referendar uma coisa que deveria ser indiscutível: todas as crianças têm o direito a crescer numa família. São 8142 crianças, 95% do total de crianças separadas dos seus pais biológicos, que crescem no limbo de instituições, sem serem adoptadas e, no caso em que a adopção não se justifica porque há esperança de se poderem um dia reunir à família biológica, sem sequer serem colocadas em famílias de acolhimento.
Mas os nossos políticos não querem saber das crianças, nem destas famílias. Não querem saber da sua necessidade de atenção individualizada, dos laços afectivos que as prendem a determinadas pessoas, mesmo que não sejam de sangue. Será melhor uma criança crescer desamparada numa instituição do que com amor, só porque esse amor vem de alguém cujas preferências sexuais não são a norma? (E o que é a norma?) Crianças que, aos dezoito anos são deixadas a si próprias, porque já não podem estar nessas mesmas instituições, tornando-se muitas vezes adultos com vidas precárias. Ou acham que de uma instituição vão para a Universidade? E a que propósito se referenda este tipo de questões, quando há tantas outras muito mais relevantes para o país, que deviam ser discutidas?
Não acredito que o referendo vá para a frente. Penso que foi um episódio estúpido que só serviu para desacreditar ainda mais a classe política e lançar o pânico entre todas as famílias afectadas directamente por esta lei. No entanto, e no ano em que se celebram os 25 anos da Convenção sobre os Direitos da Criança, que não é apenas uma declaração de princípios, mas sim um documento com vínculo jurídico, espero que tenha servido para que todos se (re)lembrem de que as crianças precisam de estabilidade e amor. Venham de onde vierem.
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«Pois é minha querida. Aqui estou à espera da morte» suspirou, com o olhar preso na janela. A cortina branca a ondular lentamente, sugerindo silhuetas de árvores e um céu azul lá fora. «Não sei porque é que me prolongam o sofrimento. Já vivi o que tinha a viver. Uma vida boa, uma vida justa, a vida que eu escolhi. Talvez para alguns tenha sido uma vida miserável, humilde demais. Para aqueles que se deslumbram, que se deixam encadear pelo que está no cimo da montanha. Mas para mim, agora que olho para trás, foi o que quis. Não me arrependo. A minha montanha é sólida. Ou era, porque agora tudo é trémulo e frágil como os meus ossos. Até as minhas memórias.»
Engulo em seco e tento sorrir. O que posso dizer? Mentir descaradamente e afirmar que vêm aí dias melhores? Que foi bom enquanto durou? Que ainda bem que viveu a vida que quis? O que é que isso interessa daqui a uns meses, quando até essa certeza se esfumar, por entre um manto de confusão e pesadelos? Como explicar a alguém que nos explicou o mundo, que nada fará sentido daqui para a frente? Que todos os rostos se vão desfigurar, mesmo os mais queridos? Aperto-lhe a mão com mais força e aceno com a cabeça. As palavras não se querem soltar. Sinto-me estúpida e vazia, como a empregada que arrasta o carrinho de chá pela casa afora, provocando um barulho ensurdecedor, aterrador, de loiça e metal. Um barulho que a estúpida ignora que possa estar a incomodar os habitantes da casa. E lá vai ela, até ao próximo quarto, a falar alto e a derramar pela tijoleira a sua falta de respeito. Como se aquelas pessoas não merecessem que se fechem as portas com cuidado, que se lavem as chávenas com delicadeza, que se fale ao telefone num tom de voz normal. É que eles morrem todos. Não estão ali muito tempo. Não vale a pena uma pessoa se afeiçoar. E a maioria são surdos ou senis. Daqui a um bocado, nem se vão lembrar. Não lhe pagam para mais. É domingo. Tem de limpar a casa, abrir a porta às visitas e servir os lanches até chegar a enfermeira da noite.
«Tu é que me podias ajudar a sair daqui!» exclamou, com um olhar de clarividência. «A tua cunhada não me quis ajudar, mas tu vais ajudar-me, não vais? Prenderam-me aqui. Não querem que eu saia desta cama.»
«Mas se calhar é porque não pode sair. Ainda não está curada da sua perna.»
«Não... Eles têm medo que eu ande por aí, porque eu falo de noite e faço disparates a dormir. Tenho aquela doença, como é que se chama?»
«Sonambulismo?»
«Isso. A tua prima não sabia a palavra. Amanhã já lhe digo. Não sabia, mas parece que sou sonâmbula e prego-lhes sustos. Também pregava à minha mãe. Ela pensava que eu estava a dormir e eu estava a ler debaixo dos lençóis. Ralhava tanto comigo... Era analfabeta, mas disse-me logo que eu ia dar cabo da vista. E assim foi. Sempre usei estes óculos de fundo de garrafa e agora vou ter de ser operada aos olhos. Não vejo nada. Custa trezentos mil euros a operação. Ou três mil euros? Não sei. Agora já não posso ler. Eu que adoro ler. Não li o teu livro. Não consigo. O primeiro li. Três vezes. Primeiro leio o fim. Sempre fiz isso. Leio do fim para o princípio, porque não aguento de curiosidade. Depois leio uma segunda vez, do princípio para o fim, e às vezes uma terceira. Este não consegui ler, desculpa. Parece que estou a ver a minha mãe a entrar pelo quarto adentro e a perguntar o que é que eu estava a ler. Eram sempre coisas que não devia. Livros que a Renatinha roubava da biblioteca do pai, que era oficial da Marinha. Livros com linguagem muito ousada para a época. Mas eu dizia à minha mãe que eram livros da escola e escondia-os atrás do reposteiro. E ela, como era analfabeta, acreditava. Reposteiro, que palavras tão feia... Mas é assim que se diz, não é? Não havia livros na minha casa, mas eu punha a mão em qualquer um que encontrasse. Sempre tive uma avidez pela leitura, pelo conhecimento. Sempre fui muito curiosa. Também tinha um vizinho a quem pedia "O Século" emprestado. Era o Jorge. Um gordo, assim meio seboso e aparvalhado. A mãe dele, que era feirante, comprava "O Século" porque queria que ele fosse instruído, mas ele não queria saber disso para nada. Então, eu pedia-lhe para levar o jornal para casa e devorava-o até à manhã seguinte. Depois deixava-o lá direitinho, debaixo da porta. A mãe dele era feirante, mas sabia que o mais importante era estudar. Vê lá tu, naquela altura! E a Renatinha a levar-me os livros do pai, às escondidas. Encontrávamo-nos no ringue, mas eu não ia lá para dentro, porque tinha medo de levar com o disco na cabeça. Então sentava-me na cancela, a impedir o jogo. E elas ficavam todas furiosas e depois a Renatinha dizia que já não me emprestava mais livros... Estão todos mortos... Mas deixa-me olhar para ti. Estás tão bonita.»
Dou uma volta como uma menina pequena a exibir o vestido novo. A menina pequena que era quando nos conhecemos, num tempo em que eu falava pelos cotovelos. Agora não sei o que dizer. Queria ser essa menina pequena outra vez. Talvez começasse a contar uma história cor-de-rosa, daquelas que só as meninas pequenas sabem contar. E conseguiria tirá-la daquela cama para darmos um passeio de mãos dadas. Depois, a professora faria um traço num papel com um marcador grosso, o qual eu teria de completar com os meus lápis de cor. "Desenho dirigido", a minha actividade preferida nas nossas aulas. As crianças têm muito mais jeito para lidar com os adultos e com situações constrangedoras em geral. Sabem sempre o que dizer. Nunca ficam com nós na garganta.
«Quando sair daqui tenho de marcar uma consulta com um... com um... como é que se diz? Aquelas pessoas que tratam das coisas que as pessoas não sabem explicar?»
«Psicólogo?»
«Não, aqueles que tratam as pessoas que não percebem o que se passa na cabeça»
«Psiquiatra?»
«Isso, ainda ontem estive o dia todo a tentar dizer isso à tua nora, a Sa... como é que ela se chama? A tua nora? Não interessa. Psiquiatra. Gostava de falar com um e perguntar se é normal nuns momento estar aqui e, noutros, parece que já não estou, que não sou eu, não posso ser eu, não me lembro. Parece um pesadelo. Achas que ele me ajuda?»
«Claro que sim. Mas é normal estar confusa.»
«Eu estou aqui mas tenho uma casa, sabias? Não preciso de estar aqui. E a minha prima também tem uma casa... Estou cansada.»
«Sim, acho melhor descansar. Posso voltar para outra visita?»
«Podes. Gostei muito de te ver. Estás muito bonita.»
«Então eu volto. Descanse agora.»
Dou-lhe um beijo na testa e sorrio, enquanto choro por dentro. Para mim o dia ainda vai a meio. Tenho os meus amores à minha espera, o jantar para fazer, a semana de trabalho para preparar, uma vida inteira para construir. Para ela só há aquela janela, que em breve já nem o azul do céu permitirá vislumbrar, agora que o Outono chegou. Uma janela e mais um dia que nunca mais acaba. Mais um novelo de recordações que se misturam e misturam até se perder totalmente o fio à meada.
Saio e reparo que o meu carro é o único no parque de estacionamento. É domingo. Está sol. Poucos são os que estão dispostos a deixar que uma nuvem negra lhes estrague o fim-de-semana. Ignoram a importância do calor humano, de um afago, de um sorriso. Ignoram que os minutos que nos pesam no coração, por espelharem a efemeridade da nossa existência, levam alguma leveza ao coração dos que ali vivem os resquícios da sua. De qualquer forma, eles são velhos. Nem sabem que dia é. Não se vão lembrar.
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Quem não acredita que rir é o melhor remédio, não conhece esta história.Bob Carey começou a fotografar-se nos locais mais inesperados vestindo apenas um tutu cor-de-rosa por puro gozo. Até ao dia em a sua mulher descobriu que tinha cancro de mama. A sua luta com a doença por duas vezes num espaço de três anos ensinou-lhes que só com uma boa dose de humor se consegue ultrapassar tamanha provação e que muitas vezes um sorriso ajuda mais do que se julga.Foi então que Bob decidiu publicar as fotografias e com elas ajudar a financiar diversa organizações que lutam contra o cancro de mama."The Tutu Project" já conta com várias exposições e eventos pelos Estados Unidos e um livro. O melhor: as fotografias estão à venda no site para quem quiser. Vai já para minha lista de desejos.©Bob Carey
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O meu país é cheio de sol e de mar e de paisagens bonitas. É cheio de poetas e atletas e artistas de renome. É cheio de história e de feitos e de tesouros em cada recanto. Mas também é cheio de pessoas. E a maioria das pessoas é desinteressada e muitas vezes iletrada também.Só num país de pessoas desinteressadas é que se chega ao que se chegou. Pessoas que não votam, que não se queixam, que não se impõem, que deixam andar, que fecham os olhos, que acham tudo normal. Ou que se queixam apenas quando as ervas daninhas chegam ao seu quintal, assobiando entretanto para o ar, esquecendo-se que na verdade é mesmo a união que faz a força e que se tivessem ajudado o vizinho a combater as ervas daninhas quando elas o atingiram, talvez estas não se tivessem propagado pelo bairro inteiro.Só num país de pessoas iletradas é que se engolem todas as informações e desinformações que aparecem na comunicação social sem questionar. Sem sentido crítico. E se elegem corruptos atrás de corruptos, incompetentes atrás de incompetentes, divididos em dois partidos (ou quatro tanto faz, porque quando chegam a qualquer cargo de poder são todos iguais e as mesmas pessoas que criticavam os lobbies, os empregos para os amigos, a incoerência, passam a fazer exactamente a mesma coisa).Só num país de pessoas assim se deita por terra o futuro de pelo menos duas gerações. Por ganância, incompetência e amor ao poder de uns e por desinteresse, passividade e alheamento dos outros.No dia em que se celebra a felicidade não posso, por isso, estar feliz com o meu país. Um país onde há outra vez crianças a ir para a escola de estômago vazio e velhos sem dinheiro para os medicamentos. Onde há reformados a sustentar os filhos e os netos com as suas cada vez mais magras reformas e pessoas a desligar os aquecedores não por opção ecológica, que tanto me alegraria, mas por necessidade . Um país onde, em vez de se sair, se regressa a casa dos pais e onde os grandes empresários acham que um ordenado mínimo de 400 euros ainda é demasiado alto para se ser competitivo.Não posso estar feliz quando nos últimos meses amigos atrás de amigos partiram para outros destinos e continentes, não pela aventura mas por não terem outra opção. Ou quando faço contas aos meus rendimentos depois de mais uma leva de cortes e constato que, se não fossem os meus pais e sogros, não podia ter mais filhos. Ou quando vejo o negócio onde a minha família trabalhou durante mais de cinquenta anos aumentar a estatísticas das insolvências e engrossar as fileiras do desemprego.Sempre tive um espírito revolucionário, embora seja totalmente apartidária. Sou mais pelas causas do que pelas hierarquias. Sempre ergui a voz contra as injustiças e sempre questionei as ordens quando as achava injustas, não para ser do contra, mas para tentar compreender o seu porquê. (Talvez por isso, ao fim de dez anos de carreira, continue com quase tanto como quando comecei, o que também diz muito sobre a mentalidade das chefias deste país.) Quando vejo as notícias ou ouço as histórias da minha gente apetece-me ir para a rua gritar. Chega mesmo a apetecer-me incitar à violência, percebendo que muitos movimentos terroristas surgem exactamente do desespero de gritar e gritar e ninguém nos ouvir. Mas claro que isso é apenas um devaneio e nunca uma ideia de solução. Até porque este meu país (e a Europa em geral!) precisa mais do que revolucionários. Precisa de um rumo. E esse não o consigo vislumbrar.©VHILS
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Querida Apple,Quero o meu marido de volta.Não é nada pessoal, juro. Sou uma verdadeira fã dos teus produtos e o sonho do teu departamento de vendas. Senão repara: tenho um iPhone, um iPad, um MacBook, um iPod shuffle e até um Mini iPod dos primeiríssimos, que já não funciona, coitadinho, mas que fez maravilhas nos seus tempos áureos. Uso-os diariamente, confesso, mas ainda assim consigo resistir à tentação de os ligar a cada minuto livre do dia. Por exemplo, sou daquelas pessoas que ainda consegue sentar-se no sofá e pegar num livro ou numa revista. Mais: sou daquelas pessoas que consegue não tirar o iPhone da mala quando chego a qualquer lado. E se ouvir lá ao longe, abafado pelo tecido e pela distância, um aviso de mensagem ou email novo, sou mesmo capaz de ignorá-lo, imagina só.No entanto, o meu marido não. Até no carro, enquanto conduz, se o iPhone o alerta para nova mensagem, tem de espreitar imediatamente para o visor. Como se não houvesse outra opção. Como se fosse o responsável por uma central nuclear que tem de estar alerta 24h por dia. Em casa, à mesa de jantar, lá está o iPhone pousado ao lado do guardanapo como se fizesse parte do conjunto. À noite, quando volto para a sala depois de adormecer o nosso filho, lá está ele estendido no sofá com o seu iPad. E mesmo nos momentos de lazer, com amigos ou em família, lá vem o estúpido do aparelho intrometer-se na cena para mostrar um vídeo do YouTube ou uma imagem com mil likes no Facebook ou, simplesmente, para capturar esse instante, como se a memória já não servisse para nada.E se fosse só o meu marido...São também os meus irmãos, amigos e até o meu pai. Actualmente a sociedade ocidentalizada sofre de uma autêntica epidemia de agarrados ao "i". Nas salas de espera, nos transportes públicos, nos bancos de jardim, no intervalo do cinema ou de um jogo de futebol, à mesa, esteja quem estiver, ninguém tem pudor de sacar do seu aparelho e brincar. Mas sempre com um ar de que está a tratar de um assunto importantíssimo. Tão importante que se sobrepõe a todas as regras de educação e convivência com outros seres humanos.Voltanto ao meu marido. O que me levou a escrever-te esta carta foi o facto de considerar que representas uma ameaça desleal. Não jogamos com as mesmas armas. Se fosses uma mulher, mesmo uma Giselle, eu saberia como agir. Em última instância, far-te-ia uma espera, uma peixeirada digna de um romance de cordel, que isto quando mexem com os meus acaba-se a diplomacia. Mas não és. És uma empresa. És uma máquina. És uma fábrica de objectos desejáveis e enfeitiçadores.Assim sendo, querida Apple, para bem do meu e de milhares de casamentos resta-me pedir-te que tenhas piedade de nós. Que cries, por exemplo, uma App que envie um sinal para estes cérebros viciados de modo a que, em ocasiões sociais e familiares, o aparelho seja ignorado. Ficávamos todos a ganhar: tu continuavas a ser uma marca cool e inovadora, vendendo mais dos teus inúmeros produtos e suas novas versões anuais; nós, seres humanos outrora sociáveis, voltaríamos a aprender a conversar, a discutir, a fazer coisas arcaicas como jogar às cartas ou jogos de tabuleiro. Uns com os outros. Olhos nos olhos. E seriamos todos, os teus accionistas incluídos, felizes para sempre.Pensa nisso... Mas lembra-te que, em todas as versões, a bruxa que oferece a maça envenenada, morre no fim.Com os melhores cumprimentos,Filipa Fonseca Silva© Filipa Silva
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Porque cada vez me inquieta mais a situação política do meu país (bem mais do que o desastre económico), deixo aqui um texto que espelha a minha revolta. São palavras de António Lobo Antunes, porque jamais o conseguiria dizer melhor:
Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida.
Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento. Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos. Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos.
Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade. O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade as vezes é hereditário, dúzias deles.
Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão. O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal. Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito. Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver:
- Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro
- Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima
- Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo
que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade.
As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas,
ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente. Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos.
Vale e Azevedo para os Jerónimos, já!
Loureiro para o Panteão já!
Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já!
Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha.
Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram. Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito. Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis. Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair. Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano. Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos. Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar. Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso.
Agradeçam este solzinho.
Agradeçam a Linha Branca.
Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar.
Abaixo o Bem-Estar.
Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval. Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros. Proíbam-se os lamentos injustos. Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa. Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto. Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar?
O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos uns aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.
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