•      A propósito de notícias de recentes divórcios e separações, dei comigo a debater com o meu marido quais serão os motivos principais para tantos casais com filhos pequenos tomarem tal decisão. Mais: o que leva um casamento a deteriorar-se tão rapidamente, ao ponto de acabar antes das crianças chegarem à idade de ir para a escola? Argumento para cá, argumento para lá e ele sai-se com um “porque as mulheres mudam muito depois de serem mães”.
         Aí o meu lado feminista indignou-se e não descansou enquanto não obteve uma explicação menos vaga. O que é mudar muito? Mudar o quê? A personalidade? A forma de ver a vida? Os objectivos que tinham em comum? Emocionalmente brilhante e muito diplomaticamente, até porque não nos esqueçamos que também eu fui mãe há 8 meses e a frase podia soar a recado, o meu marido lá justificou a afirmação. Então parece que, do ponto de vista dos homens,  as mulheres mudam porque tomam para si a quase total responsabilidade pela criança, criticando os homens quando eles fazem as coisas de maneira diferente. Isso leva a que acumulem tarefas atrás de tarefas, desde os banhos, ao preparar o jantar, tratar da roupa, do gato e das plantas, até à exaustão. Ora a exaustão leva a uma menor tolerância para com as falhas do marido, bem como uma ainda menor disponibilidade para o sexo, o que os deixa tristes e abandonados (coitadinhos).
         Concordo. E acrescento que é essa mesma exaustão que leva as mulheres a não querem sair à noite, pois sabem que, no dia seguinte, as crianças acordam cheias de energia às oito da manhã independentemente do tamanho da ressaca dos pais; a marcarem jantares para a hora em que antes se lanchava, porque já sabem que à meia noite estão a cair para o lado; e a preferirem ir para o parque em vez de ficarem no sofá a ver um filme, visto que no parque os miúdos sempre se cansam enquanto que em casa não vão parar sossegados e só um dos progenitores (normalmente o homem) vai conseguir ver o filme até ao fim. Sim, as mulheres mudam depois de serem mães. Porque todas as decisões que tomam têm agora de ter em conta um (ou dois, ou três!) pequeno ser. E sim, é verdade que algumas exageram e passam a viver em função dos filhos, negligenciando todas as outras relações e aniquilando todas as outras facetas da sua personalidade. Mas mesmo as mais pragmáticas não conseguem fugir à evidência de que a vida agora é a três e, independentemente do terceiro elemento ser um filho, um cão ou um amigo que precisa temporariamente de um tecto, as coisas inevitavelmente mudam um bocadinho.
         Mas então podemos colocar a coisa ao contrário. E se os casamentos falham porque os homens não mudam depois de serem pais? Porque querem fazer os mesmos programas, os mesmos horários e esperam a mesma disponibilidade da parte das suas parceiras, como se o bebé fosse um boneco a pilhas, previsível e controlável?
         Pois. É uma questão complicada e dificilmente se chegará a um consenso. Por isso, o melhor é que todos, homens e mulheres, quando estão prestes a serem pais, se mentalizem de que, independentemente de quem muda ou não muda, o casamento nunca mais vai ser o mesmo.
         Mas pode até ser muito melhor.



  •      Além das folhas, do vento e da chuva, o Outono traz com ele a esquizofrenia do guarda-roupa. Trata-se de um fenómeno de curta duração que ataca a maior parte da população, com excepção daqueles que, faça frio ou calor, andam sempre de calças de ganga e t-shirt.
         Num dia saímos à rua de sandálias e no dia seguinte de galochas. Num dia levamos um casaquinho e no outro arrependemo-nos de ter vestido uma manga comprida. A incoerência é tão grande que quando estamos a escolher a roupa de manhã, se formos à janela observar os transeuntes para nos ajudar na decisão, ficamos ainda mais baralhados. É que vamos deparar-nos, por um lado, com as fashion victim de botas e casaco comprido, que isto de ter os modelitos da nova colecção Outono/Inverno escondidos há semanas no armário já as estava a deixar loucas; e por outro lado, com os viciados do sol de manga curta e perna à mostra, que isto de ter de guardar as havaianas até à próxima Primavera é um suplício e antes apanhar uma pneumonia que colocar a pele em contacto com tecidos mais robustos.
         Resultado: por umas meras semanas as mulheres de todo o mundo têm finalmente desculpa para dizer com toda a propriedade (e sem serem alvo de um reviramento de olhos dos seus parceiros) que não têm nada para vestir. Aproveitem!







  •     Durante a minha gravidez, sobretudo no final, quando as dores nas costas tornavam impossível calçar os meus queridos saltos altos, a coisa de que tinha mais saudades era do meu guarda-roupa fashion. A saia comprida de cintura subida, os vestidos justinhos, os tecidos sedosos. Pensava eu, na minha ingenuidade de mãe de primeira viagem, que assim que recuperasse a forma poderia voltar a usar tudo como antes. Pois não podia estar mais enganada.
        Não é "apenas" uma questão de recuperar a silhueta. É todo um novo estilo de vida. Não que as mães tenham de se vestir de mães. Só que, de repente, a escolha da fatiota do dia está condicionada por diversos factores que antes nos passavam ao lado.
    1) andar com um bebé ao colo não se coaduna com saltos de 10cm. Sobretudo na calçada portuguesa. Por isso, temos duas hipóteses: ou andamos de saltos mais baixos ou não tiramos o bebé do carrinho (a minha opção preferida). Aliás, o carrinho até ajuda na árdua tarefa de calcorrear as ruas das nossas cidades.
    2) unhas pintadas só se for de cor neutra. É que entre as inúmeras lavagens de biberões, banhos, mudas de fraldas e desapertar minúsculos botões e molinhas das roupas do bebé, acreditem que o Rouge Noir fica desfeito em dois dias. Assim, a minha opção é manter as unhas das mãos bonitas mas com verniz transparente e aproveitar a cor para as unhas dos pés.
    3) Há peças que devem ficar longe das crianças. Baba, leite, papa, fruta, bolsado, são apenas alguns dos fluidos que podem destruir uma camisa de seda ou um vestido de cetim. E acreditem que, por mais aventais que ponham, o vosso pequenino ser vai encontrar maneira de vos sujar. A maioria das vezes de forma tão amorosa que a dor de ver aquela peça arruinada é atenuada. Naquele momento. Depois, quando estamos a tentar adormecer, volta para nos assombrar. O que fazer? Antes de vestir seja o que for pergunto-me "ficarei muito triste se esta peça se estragar?". Se a resposta for sim, a peça volta para o armário à espera de um jantar só de adultos.
    4) Brincos e acessórios são brinquedos muito divertidos. E perigosos. Se por um lado, dão jeito para entreter o bebé na origem de uma birra no meio do restaurante, também podem dar uma enorme dor de cabeça, quando ele rebenta o colar e começa a colocar as pecinhas na boca ou quando nos rasga um lóbulo com um puxão no brinco. Alternativa? Brincos de mola, peças que não se partam, investir em cintos e carteiras em vez de pulseiras e colares.

        Resumindo, não é preciso renunciar às últimas tendências. Apenas readaptar o nosso estilo e lembrarmo-nos que agora já não estamos sozinhas. E ainda bem.






  •      Amanhã é a última vez que poderemos gozar o feriado de Nª.Srª. da Assunção. Segundo os peritos, os senhores que tudo sabem e que trouxeram, ao longo de 20 anos, o nosso país ao estado em que está, a redução do número de feriados serve para aumentar a produtividade.
         Pode ter o seu quê de verdade, num país em que toda a gente faz pontes ou junta dois dias de férias ao feriado para ficar com quase uma semana inteira de descanso. Mas o 15 de Agosto? Que diferença é que vai fazer quando 90% da população está de férias de qualquer maneira. Ou será que ninguém reparou que o país pára nas primeiras semanas de Agosto? Restaurantes, mercearias, escolas, creches, até há empesas do sector privado que incentivam os trabalhadores a tirar férias neste mês, porque pouco há para fazer.
         Isto é o que se chama uma medida para inglês (ou neste caso, alemão) ver. Seriam mais honesto se acabassem com o 25 de Abril, cujos princípios e valores estão a ser cada vez mais ignorados.




  •    Num país em que só se fala de futebol, de repente, durante as olimpíadas, é só entendidos nas diversas modalidades. Cada atleta que é eliminado recebe comentários de desdém. Que é uma vergonha, que é para isto que serve o nosso dinheiro, que mais valia ter ficado em casa. Como se, lá por termos o melhor jogador de futebol do mundo, todos os atletas que vestem as cores nacionais tivessem a obrigação de disputar finais e trazer medalhas.
       Ora, será que essas mesmas pessoas sabem o que é preciso trabalhar para chegar sequer às olimpíadas? Será que sabem que ser apurado já é uma vitória, num país que nem os estádios de futebol enche, quando mais os recintos de outras modalidades? Ou que a maioria dos atletas olímpicos têm que ter um trabalho a tempo inteiro e só podem treinar nas suas horas livres?
       Os mesmos jornalistas que fazem capas com a nova contratação do Benfica no dia em que um atleta português ganha uma medalha num Europeu ou num Mundial da sua modalidade, por exemplo, deviam agora explicar aos tugas, porque é que ficar entre os 10 primeiros de uma competição disputada por atletas de todo o mundo é, literalmente, um feito olímpico.

       Parabéns a todos os que trabalharam para estar agora em Londres (e também aos que não puderam estar por lesões). Não liguem aos tugas. Somos mesmo assim.


  •      Digam o que disserem. Pode vir a Organização Mundial de Saúde, a associação das mães que amamentam até os miúdos irem para a escola, os pediatras fundamentalistas, o Pai Natal, enfim, podem vir todos argumentar sobre os benefícios do leite materno, que a todos respondo: amamentar é uma seca. E aposto que muitas mulheres só continuam porque têm medo dos olhares reprovadores que lhes fazem quando dizem estar a ponderar dar às suas crias leite artificial.
              Das inúmeras razões para não querer amamentar que me vêm de repente à cabeça vou destacar apenas as que ninguém nos explica quando estamos grávidas e que só descobri quando iniciei a experiência: 
    1.  Mamilos doridos. Não me estou a referir aos problemas graves que algumas mulheres têm, que incluem feridas, infecções etc. Mesmo que corra tudo bem, há sempre uma altura do dia em que os mamilos estão doridos ou hipersensíveis de tanta chupadela.
    2. Falta de sexo como deve ser. Sim minhas amigas, o dia chegará em que vos vai apetecer fazer o amor. Só que a amamentação retira a lubrificação natural e, além disso, as maminhas deixam de fazer parte da equação. Porquê? Se um duche de água quente faz o leite começar a sair imaginem o que farão umas mãos ávidas. Já para não falar do ponto acima: mamilos doridos. (Isto também aumenta a frustração do pai da criança, porque apesar de todos os dias ter diante si um peito enorme e firme, não lhe pode tocar) 
    3.  Demora horas! Bem sei que nos primeiros meses o papel da mãe é, exactamente, dedicar-se 100% ao seu bebé. Para isso é que existem licenças de maternidade e tudo. Mas passar oito horas por dia a amamentar é de dar em louca. Porquê oito horas? Porque os bebés comem pelo menos 7 vezes por dia e o ritual é: come de uma mama durante uns 15 minutos (se não mais, porque há quem diga que se deve deixar o bebé ficar o tempo que lhe apetecer – claramente pessoas que têm muito tempo livre nas mãos), 5 ou 10 minutos para arrotar, mais 5 ou 10 minutos na outra mama e voltamos ao filme de arrotar. Depois há que mudar a fralda, o que por vezes inclui mudar a roupa toda, e a possibilidade do bebé estar a engasgar-se e precisar de arrotar mais um bocadinho. Nisto passou-se no mínimo uma hora. A meio da noite significa que quando voltamos para a cama e estamos finalmente prontas para voltar a dormir, já só faltam duas horas para o bebé voltar a acordar. Bom, não é?
    4. Sentimo-nos umas autênticas vacas. Sobretudo quando temos de tirar leite (para deixar para o bebé ou simplesmente porque o peito está demasiado cheio e pode encaroçar). Aí sim, temos a confirmação de que não passamos de um mamífero cuja função é ser ordenhado. Cada apertão é um esguicho, tal e qual uma vaquinha leiteira. Muito sexy. 
    5.  Não sabemos se o bebé está a comer muito ou pouco. Por isso, pode acontecer ele chorar depois de ter comido durante mais de meia hora e nós a desesperar sem saber o que ele tem. Já comeu, tem uma fralda limpa, tem colinho, o que será? Fome.
         Resumindo, as vantagens para o bebé são grandes (embora eu e milhões de crianças tenhamos sido alimentadas a leite artificial e estejamos aqui, bem muito obrigada), mas para a mãe resumem-se ao ser muito práctico e ajudar a perder o peso da gravidez.
    Pronto. Agora podem insultar-me.


    (nota: amamentei o meu filho durante 2 meses em exclusivo. A ideia era ir até aos 3, mas não aguentei mais. Hoje, com 5 meses, ele está supersaudável, rechonchudo e feliz. E eu também.)
  • E como o mercado português é muito pequeno, agora vamos tentar conquistar o mundo! Partilhem e divulguem junto dos vossos amigos estrangeiros :)


    http://www.amazon.co.uk/Thirty-Something-Nothings-Dreamed-ebook/dp/B008WNPXZE/ref=sr_1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1344855521&sr

    http://itunes.apple.com/pt/book/thirty-something-nothings/id543025069?mt=11

    http://www.diesel-ebooks.com/item/SW00000174047/Fonseca-Silva-Filipa-Thirty-Something-Nothing-s-How-We-Dreamed-It-Would-Be/1.html

    http://www.barnesandnoble.com/w/thirty-something-filipa-fonseca-silva/1112037510?ean=2940044672666

    https://www.smashwords.com/books/view/174047

    E com uma capa maravilhosa feita pela grande ilustradora Sofia Silva!
  •      Quando era pequenina a minha mãe levava-me à Feira do Livro. Era uma emoção sem igual, não só porque implicava uma ida a Lisboa e eu adorava passar na ponte, mas também porque no meio de tantos e tantos livros acabava por trazer sempre um para mim.
         Enquanto o meu pai e o meu irmão, pouco dados à leitura, olhavam impacientes para o relógio, eu andava literalmente agarrada à saia da minha mãe a espreitar todas as bancadas à espera de encontrar os infantis. E ainda nem sabia ler. Mas o que importava? Eu gostava tanto de livros que os folheava lentamente e percorria as linhas de texto como se soubesse o que estava lá escrito. Ajudada pelas ilustrações, inventava eu própria as histórias que imaginava estarem ali contadas, frustrada por nunca mais chegar a hora de ir para a escola primária aprender a juntar as letras.
         Quase trinta anos depois, vou voltar à mesma feira e calcorrear os mesmos caminhos numa tarde de Primavera. Só que desta vez não é apenas para deambular de bancada em bancada à procura de mais uns calhamaços para a minha colecção. É para dar uma sessão de autógrafos do meu próprio livro. O livro que eu escrevi. E mesmo que não apareça ninguém interessado em ter o meu rabisco, estarei, entre livros, imensamente feliz.