•      Não gosto de comentar polémicas que incendeiam redes sociais, mas fiquei realmente incomodada com a mais recente. Parece que a blogger Pipoca mais doce, ao comentar as vestimentas envergadas na noite dos Óscares, ridicularizou uma adolescente que posou na passadeira vermelha por esta não estar vestida à altura do acontecimento.
         "E pronto, não é preciso procurar mais, está escolhido o terror da noite. Esta pequena, de seu nome Sofia Alves (podia perfeitamente ser a nossa Sofia Alves, que também é uma bimbalhona do pior) teve um surto de febre e, em delírio, decidiu apresentar-se assim na passadeira vermelha. Collant opaco, saia da Pimkie, uma camisola básica da H&M e o gorro do irmão mais velho que assalta carros à noite. Estou de boca aberta" escreveu no seu famoso blog.
         A polémica estalou quando se soube que a Sofia Alves era afinal uma menina com cancro cujo sonho de ir aos Óscares foi realizado pela associação Make a Wish. Mas para mim seria igualmente grave se Sofia fosse uma menina perfeitamente saudável. “Saia da Pimkie, uma camisola básica da H&M”, escreve a Pipoca com desdém. Mas será que veste de Valentino da cabeça aos pés? Será que foi criada pela realeza da moda? Ou já se esqueceu de onde veio? E será que tem assim tanta graça insultar gratuitamente uma outra figura pública?
         É este o problema destes pseudo fashionistas cujos blogs proliferam no maravilhoso mundo da internet. Acham-se o máximo por saberem quem é o director criativo da Givenchy ou por terem um convite para a Moda Lisboa, escrevem sobre tendências em tom de especialista e sobre gaffes das estrelas com sarcasmo, mas na verdade, a única qualificação que têm no que toca a moda é a avidez com que devoram Vogues e copiam blogs internacionais. E iludidos pela arbitrariedade do sucesso que se pode atingir na internet, começam a acreditar que são melhores, mais sofisticados, mais informados, mais elegantes do que todos os outros mortais.
         Claro que um blog ou um artigo de opinião num jornal é sempre algo pessoal onde o autor escreve o que pensa, sem censura. Mas quando se começa a ter uma audiência de milhares de pessoas é preciso ter algum pudor. Não se pode, ou pelo menos não se deve, escrever absolutamente tudo o que nos passa pela cabeça e que até podia ser engraçado se partilhado numa conversa entre amigos.  Com uma audiência de milhares há muito espaço para más interpretações e ainda mais espaço para que uma pequena gaffe se transforme na piada do mês. A Pipoca deveria saber isto, ou não aprendeu nada com os seus amigos que colaboraram nos célebres vídeos da Samsung? Ou mesmo com o Sr.Galliano, já que gosta tanto de temas de moda. 



  •      A melhor analogia que me ocorre para descrever a tarefa de criar um filho é um videojogo. Começamos devagar com um pequeno ser que não faz outra coisa senão comer, dormir e sujar fraldas, e o trabalho vai aumentando, aumentando até gastarmos todas as nossas vidas e no ecrã surgir um Game Over, que é como quem diz, a hora da nossa morte. Mas não é esta a única semelhança entre a maternidade e o entretenimento virtual: cada nível é progressivamente mais difícil do que o anterior, de modo a manter a emoção e trocar-nos as voltas quando achamos que já estamos a controlar a situação. Senão vejamos.
         Primeiro nível - dos 0 aos 3 meses
         Neste primeiro nível o bebé em si não dá muito trabalho. Aliás, passa mais tempo a dormir do que acordado, é bastante portátil e a única coisa mesmo difícil para as mães é o não dormir mais de quatro horas seguidas. A não ser que o bebé sofra de cólicas, o que faz com que esta fase pareça um filme de terror.
         Segundo nível - dos 3 aos 6 meses
         Quando finalmente nos habituamos ao ritmo, às tarefas diárias, à ausência de vida social, o bebé começa a regular o sono da noite mas a revelar inúmeras outras maneiras de nos manter atarefadas durante o dia, até porque ainda não sabe fazer nada sozinho, incluindo sentar-se a brincar. Também pode dar luta na introdução dos alimentos sólidos.
         Terceiro nível - dos 6 aos 12 meses
         Começa o desassossego dos dentes (há bebés que sofrem com cada um deles) em simultâneo com a aventura de gatinhar, que nos leva a andar sempre atrás deles para ver se não trepam por um móvel acima. Esta fase corresponde também à entrada nos infantários, ou como os pediatras chamam, os infectários: viroses, constipações e noites horríveis para os pais. Mesmo a terminar o primeiro ano de vida vêm os primeiros passos, que é como quem diz os primeiros galos na testa, bibelôs partidos e umas enormes dores nas costas para quem tem de andar dobrado a agarrar nas mãozinhas do pequeno ser.
         Quarto nível - dos 12 aos 24 meses
         Quando eles já andam sozinhos inicia-se a maravilhosa descoberta do mundo: tomadas eléctricas à medida dos seus dedinhos, telemóveis e outros objectos de valor atirados para dentro da sanita, saltos, cambalhotas e uma enorme atração pelo abismo, seja ele uma estrada cheia de carros ou um vão de escadas. É neste nível que as mães descobrem que têm cinco pares de olhos e superpoderes para antecipar cada perigo.
         Quinto nível - dos 2 aos 3 anos
         Chega  o segundo ano de vida e com ele a emocionante aventura de largar as fraldas (incontáveis lençóis e resguardos serão lavados) e de comer sozinho (aconselho a removerem os tapetes debaixo da mesa de jantar). Mas a minha fase preferida neste nível é o desenvolvimento da arte da argumentação de uma mãe ou como convencer uma criança desta idade que não pode ir de calções de banho para a rua em Dezembro.
          Estão a ver a ideia?
          Pois muitos mais níveis existem, alguns com designações célebres como "idade dos porquês" ou "fase do armário", mas acho que com estes já dá para chegar ao âmago desta lição: tal como num videojogo, não desejem que «esta fase passe depressa» porque a seguinte é sempre mais difícil e lá diz o ditado «filhos criados, trabalhos dobrados». Entrem em cada nível com a determinação de aproveitar todas as coisas boas que tem, pois mesmo as mães mais pessimistas sabem que essas coisas boas suplantam por larga margem todas as coisas más.






  • Querida Apple,

    Quero o meu marido de volta.

    Não é nada pessoal, juro. Sou uma verdadeira fã dos teus produtos e o sonho do teu departamento de vendas. Senão repara: tenho um iPhone, um iPad, um MacBook, um iPod shuffle e até um Mini iPod dos primeiríssimos, que já não funciona, coitadinho, mas que fez maravilhas nos seus tempos áureos.  Uso-os diariamente, confesso, mas ainda assim consigo resistir à tentação de os ligar a cada minuto livre do dia. Por exemplo, sou daquelas pessoas que ainda consegue sentar-se no sofá e pegar num livro ou numa revista. Mais: sou daquelas pessoas que consegue não tirar o iPhone da mala quando chego a qualquer lado. E se ouvir lá ao longe, abafado pelo tecido e pela distância, um aviso de mensagem ou email novo, sou mesmo capaz de ignorá-lo, imagina só.

    No entanto, o meu marido não. Até no carro, enquanto conduz, se o iPhone o alerta para nova mensagem, tem de espreitar imediatamente para o visor. Como se não houvesse outra opção. Como se fosse o responsável por uma central nuclear que tem de estar alerta 24h por dia. Em casa, à mesa de jantar, lá está o iPhone pousado ao lado do guardanapo como se fizesse parte do conjunto. À noite, quando volto para a sala depois de adormecer o nosso filho, lá está ele estendido no sofá com o seu iPad. E mesmo nos momentos de lazer, com amigos ou em família, lá vem o estúpido do aparelho intrometer-se na cena para mostrar um vídeo do YouTube ou uma imagem com mil likes no Facebook ou, simplesmente, para capturar esse instante, como se a memória já não servisse para nada.

    E se fosse só o meu marido...

    São também os meus irmãos, amigos e até o meu pai. Actualmente a sociedade ocidentalizada sofre de uma autêntica epidemia de agarrados ao "i". Nas salas de espera, nos transportes públicos, nos bancos de jardim, no intervalo do cinema ou de um jogo de futebol, à mesa, esteja quem estiver, ninguém tem pudor de sacar do seu aparelho e brincar. Mas sempre com um ar de que está a tratar de um assunto importantíssimo. Tão importante que se sobrepõe a todas as regras de educação e convivência com outros seres humanos.

    Voltanto ao meu marido. O que me levou a escrever-te esta carta foi o facto de considerar que representas uma ameaça desleal. Não jogamos com as mesmas armas. Se fosses uma mulher, mesmo uma Giselle, eu saberia como agir. Em última instância, far-te-ia uma espera, uma peixeirada digna de um romance de cordel, que isto quando mexem com os meus acaba-se a diplomacia. Mas não és. És uma empresa. És uma máquina. És uma fábrica de objectos desejáveis e enfeitiçadores.

    Assim sendo, querida Apple, para bem do meu e de milhares de casamentos resta-me pedir-te que tenhas piedade de nós. Que cries, por exemplo, uma App que envie um sinal para estes cérebros viciados de modo a que, em ocasiões sociais e familiares, o aparelho seja ignorado. Ficávamos todos a ganhar: tu continuavas a ser uma marca cool e inovadora, vendendo mais dos teus inúmeros produtos e suas novas versões anuais; nós, seres humanos outrora sociáveis, voltaríamos a aprender a conversar, a discutir, a fazer coisas arcaicas como jogar às cartas ou jogos de tabuleiro. Uns com os outros. Olhos nos olhos. E seriamos todos, os teus accionistas incluídos, felizes para sempre.

    Pensa nisso... Mas lembra-te que, em todas as versões, a bruxa que oferece a maça envenenada, morre no fim.

    Com os melhores cumprimentos,

    Filipa Fonseca Silva


         © Filipa Silva


  •      Quando uma criança nasce apodera-se das mães a sensação de que o seu filho é a melhor coisa do mundo. E sim, é mesmo. Mas ser a melhor coisa do mundo é diferente de ser o melhor do mundo (que isso é algo que só a Dona Celeste Aveiro pode afirmar) e é essa diferença que a maioria das mães e muitos dos pais não conseguem ver.

         A competição começa logo nos primeiros meses: o meu já dorme a noite toda; a minha nunca chora; o meu já agarra o brinquedo; até ao cúmulo de um pai me ter dito que a sua filha de um mês já sorria, quando toda a gente sabe que nos primeiros três meses de vida os sorrisos são esgares musculares involuntários.

         Mais tarde começa a comparação dos pequenos marcos do primeiro ano de vida: o meu já se senta; o meu já bate palminhas; a minha já gatinha; o meu já faz adeus; a minha já sabe andar; o meu já tem três dentes, a minha já brinca com o iPhone.
         E a coisa não acalma ao longo dos anos: a minha já não usa fraldas; o meu já conta até vinte; a minha já se veste sozinha; o meu já sabe fazer contas de multiplicar; a minha teve cinco a tudo; o meu entrou em medicina; a minha já tem dois filhos; o meu já tem seis.

         Mas mais do que o facto de se vangloriarem pelos feitos dos seus rebentos, que em muitos casos até podem ser dignos de nota e indicativos de uma inteligência ou destreza física superior, o que se torna irritante é o tom. É que não há inocência quando certas mães perguntam se o nosso bebé já anda. O objectivo é proferir um “o meu já!”, num tom triunfal, como se o marco do filho fosse, por consequência, um marco próprio, prova irrefutável do seu talento como progenitora. A questão é tão evidente que o meu marido costuma responder que o nosso Tiago, de apenas doze meses, até já lê. E acreditem que há mães que, por brevíssimos instantes, ficam a pensar se será mesmo verdade. Depois sorriem e percebem que é melhor pararem com perguntas irrelevantes.

         É que a verdade, mamãs de todo o mundo, é que isto não é uma competição. Cada criança tem o seu ritmo de aprendizagem e de evolução e o fazer ou não fazer uma gracinha não significa que tenha algum problema nem que vocês sejam melhores ou piores mães. Tenham orgulho nos vossos filhos quer figurem no quadro de honra da escola, quer fiquem em último lugar na prova de natação. Emoldurem todos os diplomas mas também aquele desenho do gato que parece uma galinha. Gabem-se do seu talento musical, mas não escondam aquele dia em que foi tão mal educado que vos apeteceu chorar. Porque mesmo em dias como esse, cada filho é o melhor filho para a sua mãe.



  • Porque cada vez me inquieta mais a situação política do meu país (bem mais do que o desastre económico), deixo aqui um texto que espelha a minha revolta. São palavras de António Lobo Antunes, porque jamais o conseguiria dizer melhor:

    Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida.

    Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento. Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos. Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos.

    Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade. O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade as vezes é hereditário, dúzias deles.

    Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão. O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal. Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito. Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver:

    - Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro

    - Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima

    - Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo

    que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade.

    As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas,
    ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente. Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente  indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos.

    Vale e Azevedo para os Jerónimos, já!

    Loureiro para o Panteão já!

    Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já!

    Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha.

    Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram. Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito. Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis. Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair. Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano. Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos. Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar. Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. 
    Agradeçam este solzinho.

    Agradeçam a Linha Branca.

    Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar.

    Abaixo o Bem-Estar.

    Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval. Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros. Proíbam-se os lamentos injustos. Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa. Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto. Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar?

    O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos uns aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.





  •      Antes de ter um filho, a única coisa que me fazia levantar ao domingo antes das onze da manhã era uma viagem de avião. Então no Inverno, era coisa para ir tomar o pequeno almoço e voltar para a cama até à hora de almoço. Claro que tudo isso acaba com a maternidade. Quando o meu filho dorme até às nove é uma alegria e muitas vezes, pelas onze, já estamos a regressar a casa de um pequeno passeio pelo quarteirão ou de uma rápida incursão ao supermercado.

         Nesses pequenos passeio descobri que, afinal, há imensa gente que se levanta cedo ao domingo: desportistas, pescadores, pessoas que vão passear os cães, turistas. Até aqui tudo bem. O que eu não sabia e fiquei a saber recentemente é que neste dia da semana há também um universo paralelo para famílias com filhos pequenos.

         Tudo começou com um convite que uma grande amiga me fez para um concerto para bebés. Domingo. Dez da manhã. Sintra. Quando o despertador tocou às oito e pouco o meu estado de choque era tão grande que até o corpo me doía e mal conseguia falar. O duche foi a correr, o pequeno-almoço foi a correr, o bebé foi enfiado na cadeirinha a correr.  Imaginei que teria a solidariedade de todos os outros pais, aquele olhar cúmplice de quem diz “lá estou eu a fazer mais um pequeno sacrifício pelo meu bebé”. Mas para minha enorme surpresa a sala estava cheia de famílias felizes e aperaltadas e os únicos olhares que levei foram os de “ao menos podias ter penteado o cabelo”. Para surpresa ainda maior, havia pais a fazer aquilo pela terceira e quarta vez. Ora eu até achei a experiência do concerto bem gira (aproveito para agradecer publicamente à amiga que me convidou) e até percebo que muita gente a queira repetir, mas porque não às três da tarde? Porque não ao meio dia?

         Simples. Porque existe o tal universo paralelo habitado por famílias que voluntariamente saem de casa ao domingo de manhã e precisam de ter algo com que se entreter. Um universo onde os concertos e peças de teatro começam às dez, onde as festa de aniversário começam às dez e meia (!!!), onde famílias inteiras se apresentam despertas, penteadas, maquilhadas e com a roupa mais catita àquela hora da manhã.

         No mundo normal, os domingos de manhã são para descansar, para ressacar, para aproveitar o único dia da semana em que o despertador não tem de tocar. Mesmo havendo bebés que acordem cedo, é o dia em que podemos fazer tudo com mais calma, saborear o pequeno almoço e brincar na sala sem estar a olhar para o relógio. No universo paralelo das famílias com filhos pequenos, às oito já é para estar de banho tomado, às nove tudo na rua e às dez começam os variadíssimos eventos.

         Agora que estou a par da existência deste universo, só quero não sair do meu. Na nossa família os Domingos de manhã são para andar de pijama. 


  • Um líder é alguém que nos guia por caminhos que tínhamos receio de trilhar sozinhos.
    Um líder é alguém nos ajuda a crescer e a dar o nosso melhor.
    Um líder é alguém que está atento às preocupações de quem lidera.
    Um líder é alguém que dá o exemplo e nos faz acreditar que ainda há bons exemplos a seguir.
    Um líder é alguém que não tem medo de dizer o que pensa e lutar pelo que acredita.
    Um líder é alguém que desperta a nossa admiração.

    Tenho pena de não conhecer um único líder em Portugal, quer a nível político, quer a nível empresarial. Tenho pena de ter de admirar um líder de uma outra nação. Este sim, um líder de verdade.
    Bem haja Sr. Presidente.

    "It is now our generation’s task to carry on what those pioneers began.  For our journey is not complete until our wives, our mothers and daughters can earn a living equal to their efforts. Our journey is not complete until our gay brothers and sisters are treated like anyone else under the law for if we are truly created equal, then surely the love we commit to one another must be equal as well."

    President Barack Obama Inaugural Address



  • De vez em quando fico com este poema na cabeça. Hoje é um desses dias.

    Nos teus olhos altamente perigosos
    vigora ainda o mais rigoroso amor
    a luz dos ombros pura e a sombra
    duma angústia já purificada
    Não tu não podias ficar presa comigo
    à roda em que apodreço
    apodrecemos
    a esta pata ensanguentada que vacila
    quase medita
    e avança mugindo pelo túnel
    de uma velha dor

    Não podias ficar nesta cadeira
    onde passo o dia burocrático
    o dia-a-dia da miséria
    que sobe aos olhos vem às mãos
    aos sorrisos
    ao amor mal soletrado
    à estupidez ao desespero sem boca
    ao medo perfilado
    à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
    do modo funcionário de viver

    Não podias ficar nesta casa comigo
    em trânsito mortal até ao dia sórdido
    canino
    policial
    até ao dia que não vem da promessa
    puríssima da madrugada
    mas da miséria de uma noite gerada
    por um dia igual

    Não podias ficar presa comigo
    à pequena dor que cada um de nós
    traz docemente pela mão
    a esta pequena dor à portuguesa
    tão mansa quase vegetal

    Mas tu não mereces esta cidade não mereces
    esta roda de náusea em que giramos
    até à idiotia
    esta pequena morte
    e o seu minucioso e porco ritual
    esta nossa razão absurda de ser

    Não tu és da cidade aventureira
    da cidade onde o amor encontra as suas ruas
    e o cemitério ardente
    da sua morte
    tu és da cidade onde vives por um fio
    de puro acaso
    onde morres ou vives não de asfixia
    mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
    sem a moeda falsa do bem e do mal

    Nesta curva tão terna e lancinante
    que vai ser que já é o teu desaparecimento
    digo-te adeus
    e como um adolescente
    tropeço de ternura
    por ti


    alexandre o'neill
    no reino da dinamarca (1958)






  • Primeiro capítulo do meu novo livro. Novidades em breve! Feliz Natal :)

    1.

    - Tédio: um peso que me invade a alma e engole a vontade. A cada minuto que passa, transforma-se em impaciência. Um nervoso miudinho que faz parar a respiração na exacta proporção em que o coração acelera. «O que é que tens?» «Nada.» «Então, porque é que estás a suspirar?» «Porque me apetece. Porquê? Agora também não posso?» O que vale é que ele não me responde. Depois de quinze anos de vida em comum, finalmente percebeu que há alturas em que o melhor é estar calado. Porque é que estás a suspirar, pergunta ele. É preciso ter lata. É preciso estar completamente alheado do que se passa à sua volta. É preciso ser muito egocêntrico. Não sei se é por ser homem. Será que a vida é assim tão mais fácil para os homens? Claramente não têm de se preocupar com a celulite, com as unhas partidas, com o cabelo. Já não bastava a sorte de poderem fazer xixi em tudo quanto é canto, também não têm de se preocupar com as sobrancelhas, os cremes, a maquilhagem, as meias de vidro, esconder o peito para não parecer atrevida, mas não o suficiente que pareça uma frígida. Um homem de cabelo desgrenhado e barba por fazer, desde que tenha aquele cheiro a banho tomado, é sexy. Uma mulher de cabelo desgrenhado e que não teve tempo para ir à depilação, mesmo com cheiro a banho tomado, é uma desmazelada, nojenta, que devia ter vergonha de sair assim à rua. Então nesse caso, porque é que as mulheres não podem entrar uma hora depois do que os homens nos seus locais de trabalho, por exemplo? É isso que me apetece perguntar ao meu chefe quando me olha reprovadoramente se chego depois das nove e meia, lançando um irónico «Boa tarde! Obrigada por teres vindo»… O que é que eu tenho, pergunta ele. Ora, diga-me lá doutor, por onde quer que comece?
    O médico olhou para o relógio de pulso e apenas disse:
    - Desculpe, Vanessa, mas vai ter de começar na próxima sessão. Acabou-se o nosso tempo.
    - Mas doutor...
    - Ora Vanessa, já sabe as regras... Aponte o que me ia dizer, ponha isso tudo por tópicos num papel e falamos na próxima sessão.

    Agarrou na mala e no casaco com fúria e saiu disparada, batendo a porta atrás de si. Ao fim de quase dois meses de terapia continuava a não entender porque é que as sessões tinham de ser interrompidas. Logo quando uma pessoa começava a soltar-se. Sim, porque os primeiros vinte minutos quase não deviam contar. Alguém consegue sentar-se e pegar na conversa exactamente onde a tinha deixado na última sessão? O que sentira na semana anterior nada tinha a ver com o que sentia agora. Era preciso pensar, organizar as ideias, pegar no caderninho e relembrar o que tinha dito. Depois era preciso abstrair-se do mau aspecto do psiquiatra. O lábio superior suado, as unhas demasiado compridas, o blazer de xadrez todo coçado, os dentes amarelos. Não era nada fácil.
    Grande ajuda. Mais de duzentos euros por mês. Só de pensar em tudo o que poderia fazer com esse dinheiro até ficava mal disposta. Se ao menos o montante lhe fosse entregue directamente... Mas não era. O juiz fora muito claro: quarenta sessões de psicoterapia num médico escolhido pelos serviços sociais, no final das quais seria submetida a um teste por parte de uma entidade independente, que avaliaria se estava apta a conviver em sociedade. Ainda só ia em oito. Havia dias em que Vanessa não tinha a certeza se a alternativa não teria sido melhor: quatro meses de prisão efectiva. No fundo quatro meses passam a correr. O tédio seria o mesmo, mas com uma vantagem: estaria sozinha. Sem ninguém para lhe encher a cabeça, sem obrigações domésticas, sem ter de decidir o que vai ser o jantar, sem ter de saber onde estão os óculos dos outros, sem a brutalidade do quotidiano.
    Lá fora a chuva caía impiedosamente. «Porreiro», pensou, «Vou dar cabo dos sapatos». Encostou-se o mais que pôde à porta do prédio para evitar molhar-se enquanto procurava a chave do carro. Claro que teria sido uma boa ideia, não fossem as pessoas que constantemente entravam e a saiam. Os empurrões, as cotoveladas, os pedidos de desculpa por estar a incomodar, a mão a vasculhar a mala, a apalpar cada objecto, na esperança de sentir o metal da chave ou o cabedal do porta-chaves. Espelho, porta-moedas, batom, pinça, caixa dos óculos, óculos escuros, carteira, telemóvel, comprimidos. A chuva a penetrar na camurça dos sapatos. Não eram apenas uns salpicos. Eram manchas negras, que nunca mais conseguiria disfarçar. Outro encontrão, outra cotovelada e, afinal, a chave estava no bolso do casaco.

    É curioso que não haja mais acidentes na estrada. O carro, pelo menos nas grandes cidades, está a transformar-se num catalisador de toda a raiva e angústias que acumulamos ao longo do dia. Aceleramos com os olhos vidrados no semáforo que teima em não mudar. Travamos com a mesma fúria com que gostaríamos de ter pisado aquela pessoa insuportável que nos fez perder a cabeça. Buzinamos como se o som que se espalha na rua fosse o grito que temos de guardar. Achamo-nos intocáveis, invencíveis dentro da nossa fortaleza de metal. Ali não ouvimos os insultos, não sentimos o cheiro dos outros, não somos contagiados pela viscosidade urbana.
    Vanessa segurava o volante com a mesma força que gostaria de ter exercido no pescoço do psiquiatra. Ou do marido. Ou daquela loura altiva que nem pediu desculpa quando lhe deu com o saco nas pernas ao entrar no prédio do consultório. Como se ela não existisse. Que cabra! Foi arrancada da sua fúria por um sem-abrigo a bater-lhe no vidro. As mãos imundas e frágeis estendidas. Os nós dos dedos em ferida. Era só o que lhe faltava. Detestava dar dinheiro a estas pessoas. Achava mais útil dar o dinheiro às instituições que as acolhem ou que distribuem cobertores e comida. Mas, naquele instante, lembrou-se dos sapatos. Se a chuva faz tanto mal a um pedaço de camurça, o que não fará à alma de quem vive na rua? Viu uma mancha negra a espalhar-se pelo corpo do homem. O casaco cada vez mais ensopado, as gotas penduradas na barba. Tal como os seus sapatos, aquele homem estava irremediavelmente perdido... Deu-lhe um euro e não se importou quando o carro de trás começou a buzinar. O sinal estava verde há mais de três segundos.
    Conduziu sem saber para onde. Foi seguindo e seguindo, evitando todas as saídas familiares. Após duas horas, o depósito entrou na reserva e só aí reparou que já não chovia. Podia desligar o limpa pára-brisas. Parou na área de serviço seguinte, sem se interrogar onde estaria. Nem sequer era uma área de serviço. Era uma simples bomba de gasolina de uma estrada secundária e deserta. Reparou que tinha setenta e três chamadas não atendidas no telemóvel. Da filha, da escola da filha, do marido, do psiquiatra, do advogado, da mãe, de Diana.
    «Que histerismo», pensou. Qual era o mal de estar incontactável durante duas horas? Não podia estar simplesmente no cinema? Numa zona sem rede? Ter o telefone no silêncio? Não podia simplesmente desaparecer? Ou fazer desaparecer as pessoas à sua volta? A filha, o marido, a mãe e, sobretudo, a Diana, como se nunca tivessem existido? Não que os odiasse, só que por vezes sufocava só de pensar neles e em todas as rotinas que representavam. Imaginava muitas vezes como seria a vida se fosse órfã, solteira e sem filhos. Poder fazer o que quisesse, às horas que quisesse, com quem quisesse. Poder ir para a cama com aquele gajo giro do outro lado do bar. Ou mesmo com o gajo feio da bomba de gasolina. Não ter almoços de família, Natais cheios de gente, férias de Verão com a casa às costas. Gastar o dinheiro do aparelho da filha numa viagem à Tailândia. Ficar de pijama todo o dia, sem sequer tomar banho. Comer bolachas de chocolate no sofá e não se importar com as migalhas que caem. Uma refeição sozinha. Nenhuma conversa. Apenas olhando a parede em frente durante longos minutos, sem ter de ouvir «O que é que tens?». Como seria? Como seria ser livre? Absolutamente livre?

     Driving Rain by Tim Nichols